Resumo (PT):
Este artigo examina criticamente os desafios epistêmicos das democracias contemporâneas e
propõe o uso ético da inteligência artificial (IA) como meio de fortalecer práticas democráticas informadas,
alinhando-as a certos ideais da epistocracia. Partindo da crítica clássica de Platão à democracia e da defesa
contemporânea da epistocracia por autores como Jason Brennan, discutem-se as limitações cognitivas que
afetam a qualidade das decisões políticas, incluindo ignorância racional, polarização, vieses cognitivos e
desinformação, e como elas prejudicam tanto a legitimidade quanto a eficácia dos governos eleitos. Em vez
de adotar uma epistocracia elitista e excludente, defende-se aqui uma democracia mais informada, capaz de
conjugar o ideal democrático de igualdade com o acesso ampliado e assistido ao conhecimento relevante
para a deliberação política. A IA é apresentada como possível aliada nesse esforço, funcionando como
infraestrutura de capacitação. O artigo também analisa criticamente os riscos da IA, incluindo viés
algorítmico, manipulação informacional e reprodução de desigualdades, defendendo uma abordagem atenta
às consequências normativas desse tipo de tecnologia. Por fim, sustenta-se que uma democracia mais justa
e informada só será possível se tecnologias como a IA forem concebidas como ferramentas de justiça
epistêmica, orientadas não à substituição, mas ao fortalecimento do julgamento político autônomo dos
cidadãos.
Abstract (EN):
is article critically examines the epistemic challenges of contemporary democracies and
proposes the ethical use of artificial intelligence (AI) as a means to strengthen informed democratic practices,
aligning them with certain ideals of epistocracy. Drawing on Plato’s classical critique of democracy and the
contemporary defense of epistocracy by authors such as Jason Brennan, the article discusses the cognitive
limitations that affect the quality of political decisions—including rational ignorance, polarization, cognitive
biases, and disinformation—and how these undermine both the legitimacy and the effectiveness of elected
governments. Instead of adopting an elitist and exclusionary epistocracy, the article advocates for a more
informed democracy, one that combines the democratic ideal of equality with expanded and assisted access
to relevant knowledge for political deliberation. AI is presented as a potential ally in this effort, functioning
as an enabling infrastructure. The article also critically analyzes the risks of AI, including algorithmic bias,
informational manipulation, and the reproduction of inequalities, advocating for an approach attentive to
the normative consequences of this technology. Finally, it argues that a more just and informed democracy
will only be possible if technologies such as AI are conceived as tools of epistemic justice, oriented not
toward replacing but rather strengthening citizens’ autonomous political judgment.
Idioma:
Português
Tipo (Avaliação Docente):
Científica
Nº de páginas:
14