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Exposição DAP ´Terceira Margem'

Inaugura sábado, dia 22 de junho 2024, às 15h, na Casa do Campo Pequeno, Porto

Terceira Margem é a exposição final do 1º ano do Doutoramento em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto que fica patente dias 23, 25-30 junho 2024, das 14h às 19h. Reúne trabalhos dos seguintes artistas:

Cristiana Macedo / Diego Xavier / Eduardo Brito / Felipe Argiles / Flor de Ceres Rabaçal / Lina de Albuquerque / Manuel Santos / Rodrigo Queirós / Tatiana Móes / Tobias Gaede / Unnur Óttarsdóttir

Esta exposição só foi possível pela generosidade de António Moutinho Cardoso, que nos abriu uma vez mais as portas da Casa do Campo Pequeno e nos recebeu de braços abertos.  

Espaços-entre
Num conto de João Guimarães Rosa, 'A terceira margem do rio' (1962), ouvimos a história de um homem que encomenda uma pequena canoa em pau de vinhático onde cabia apenas o remador, um barco de um homem só, feita para durar muito tempo dentro de água. Recebido o pequeno barco, este homem pôs o chapéu e embarcou decidido com um adeus silencioso à família. Sem levar nada consigo, afastou-se para o meio do rio, equidistante das margens, nesse lugar de ninguém que fica entre dois mundos. Nunca mais voltou. Não tinha ido a nenhum lado, tinha apenas escolhido ficar ali, como um funâmbulo entre as margens, longe do mundo, numa ilha flutuante e instável. Deixavam-lhe comida na margem, mas nunca o viam recolhê-la. Sempre que alguém o procurava, afastava-se, deslocando-se, acima e abaixo e de uma margem à outra sem nunca desistir do seu exílio voluntário. As estações e os anos passavam e ele continuava ali, teimosamente isolado, debaixo de chuva e sol, num equilíbrio precário sobre a água que corria no rio. Nunca mais pisou terra firme, como se tivesse entrado num processo de devir outra coisa, algo entre o crocodilo e os troncos que desciam rio abaixo. No meio das enchentes, víamo-lo ali, firme, lutando contra a correnteza e toda a espécie de coisas trazidas pela água revoltosa. Ele ali estava, ou melhor, estava e não estava. Não havia como esquecê-lo, mas também não como recordá-lo, para sempre flutuando nessa terra de ninguém.
Penso que não é difícil pensar na arte, desde a modernidade, como um jogo de espelhos entre centro e periferia, entre o mainstream e as suas margens. Uma parte importante desse jogo fez-se através da construção da figura mitificada e idealizada do artista como marginal ou mesmo como fora-da-lei. Ser artista seria assim estar à margem ou fora. No mínimo o lugar da arte seria a sua própria exterioridade, um pouco como na canção de António Variações (Estou além, 1982): 

Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou

Sabemos bem do esgotamento deste modelo e da forma como o sistema das artes foi apurando diferentes mecanismos de incorporação da exterioridade, institucionalizando a prazo todos os movimentos que se reclamavam das margens, todos os contra-fluxos. Já não haverá fora da estética. A estética está agora em todo o lado, dizem-nos. No entanto, esta vitória de Pirro da estética parece retirar-nos também a possibilidade da utopia, de pensar um futuro. Como imaginar, então, as margens para lá da sua figura isolada e esquecida, longe dos fluxos normativos que ocupam o centro? Como sonhar um espaço entre as coisas que nos permita escapar à armadilha da imobilidade e catatonia? Como continuar a pensar um futuro para arte, uma utopia possível? 

Num momento em que se impõe como fatalidade a narrativa que nos diz que já não há fronteiras a atravessar, que o destino de tudo é ser engolido pelo mainstream, a possibilidade de oferecer um corpo, uma textura e uma presença material a essas linhas de fronteira entre as coisas é uma ação política radical, ou seja, estética. Ora, partindo do princípio de que a arte é feita do seu próprio fazer, a prática artística parece ser o terreno perfeito para experimentar a variabilidade corpórea dessas fronteiras, assim transformadas em matéria plástica e habitável, com corpo e espessura. Já não se trata de ir de A até B ou de saltar barreiras, reais ou imaginárias, mas de escolher o espaço indeterminado entre esses dois pontos, contrariando o fluxo do centro. Será talvez fazer um pouco como a personagem de João Guimarães Rosa, não como exílio ou retirada do mundo, mas antes como ação produtiva e afirmativa do lugar corpóreo de uma outra margem, ilha móvel e flutuante que podemos habitar, espaço-entre que tem um corpo fluido, instável e quase impossível de definir. Habitar esse espaço-entre é hoje talvez uma das possibilidades utópicas, da arte à política, de sobreviver ao colapso da ideia de futuro, de um futuro comum que parece escapar-nos.

***

O Porto é uma cidade de ilhas. Com o tempo, esta realidade tem mudado, mas essa atomização social continua a guiar a topologia da cidade. Ao contrário do que se repete na construção do seu imaginário social, o Porto não é uma cidade burguesa, mas sim uma cidade proletária que revela, amiúde, contornos rurais, sobretudo nas suas margens. Aquilo que sempre fez a força da cidade foram essas massas que alimentaram a máquina da indústria e do comércio. As ilhas do Porto foram, e são ainda, apesar de condenadas a uma rápida extinção, uma marca dessa cidade proletária, pobre e descamisada. No outro extremo, tínhamos as escassas elites da cidade, que habitavam as suas ilhas privadas e que se alimentavam dessa gente que vinha para a cidade à procura de um trabalho, mais ou menos estável, mais ou menos digno, fosse nas fábricas, no comércio ou no serviço doméstico. O que vemos hoje nesta cidade em desconstrução acelerada são os restos desta realidade desenhada sobretudo ao longo do século XIX e parte do século XX.

Pensar ainda hoje a cidade do Porto a partir a imagem da ilha, como realidade heterotópica e marginal, é um desafio duro, desde logo porque essas marcas da segregação social continuam a definir uma parte importante daquilo que aí se passa. As últimas décadas, com o ruir do tecido económico da cidade, hoje em grande parte dependente da monocultura do turismo e do imobiliário, têm feito desaparecer estas marcas e, acima de tudo, têm esvaziado o tecido social da cidade, hoje mais cosmopolita e, aparentemente mais dinâmica, mas tendo como contraponto o fim de uma era em que as velhas ilhas, todas elas, as proletárias e as burguesas, se têm convertido em mais um brinquedo do empreendedorismo que tem mudado a face da cidade. Há, é certo, um novo subproletariado a chegar à cidade, sobretudo feito de imigrantes que vêm fazer o trabalho que os outros já não querem fazer, mas o que resta do velho proletariado do Porto, cerca de 30.000 pessoas, está hoje quase exclusivamente acantonado em bairros sociais ou foi atirado para as periferias, outras formas de pensar a ilha como lugar de isolamento e exclusão, lugares da cidade fora da cidade.

Fazer uma exposição na Casa do Campo Pequeno, exemplo acabado do contraponto burguês e oitocentista às ilhas proletárias que ainda vamos encontrando aqui e ali, é também uma oportunidade para pensarmos a cidade e a construção do seu imaginário. A Casa do Campo Pequeno, construída em meados do século XIX por uma família de banqueiros, já não é casa de habitação há décadas (albergou de 1975 a 2008 o Conservatório de Música), no entanto os fantasmas desses tempos continuam a habitá-la. À atomização horizontal e à construção de ilhas e arquipélagos pela cidade, casas como esta contrapunham uma segregação social vertical, com as áreas sociais, as zonas privadas e aquelas destinadas à criadagem, como então se dizia, muito bem definidas, da cave ao sótão. Não há, pois, como escapar ao jogo político de espelhos trazido pela ideia da ilha como elemento de estruturação social. São esses fantasmas que, direta ou indiretamente, irão conviver com as peças montadas pela casa. Podemos não os ver, mas não temos como lhes escapar.

Miguel Leal
Freisburg im Breigau
13 de junho 2024

Org.: Doutoramento em Artes Plásticas, FBAUP

  Exposição Terceira Margem

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