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Memória U.Porto

Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto

Papiniano Carlos

Fotografia de Papiniano Carlos Papiniano Carlos
1918-2012
Escritor (poeta e ficcionista)

”Era uma vez
uma menina
chamada
Gotinha de Água.

A menina
Gotinha de Água
vivia
no mar sem fim.
E era linda,
tão linda,
vestida de esmeralda
e luar.
Ora no fundo,
ora nas vagas
coberta de espuma,
ela brincava
com suas irmãs.(…)"

(A Menina Gotinha de Água)



Ficha Escolar de Papiniano Papiniano Manuel Carlos de Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, a 9 de novembro de 1918.

Aos 10 anos de idade veio com a mãe para o Porto. Nesta cidade, frequentou os estudos secundários no Liceu Alexandre Herculano e ingressou na universidade. Fez os Preparatórios da Escola Militar no ano letivo de 1936/1937 e frequentou os cursos de Engenharia Eletrotécnica (ano 1941/1942), de Engenharia Mecânica (1948/1949), da Faculdade de Engenharia, e o de Ciências Geofísicas (1951/1952 e 1955/1956 e 1956/1957) da Faculdade de Ciências.

Terra com Sede de Papiniano CarlosPublicou o seu primeiro livro em 1942, um volume de poesias intitulado Esboço. Volvidos quatro anos deu à estampa Estrada Nova – Caderno de Poemas, com capa de Júlio Pomar, uma obra bem acolhida pelo público, mas rapidamente apreendida pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), pouco sensível à inspiração social e democrática do autor. Naquele ano foi, também, publicada Terra com sede, que marca a sua estreia na ficção e que reúne alguns dos mais belos contos do neo-realismo português, como Nana, Tocador de Harmónica.

Simbolo Alternativo do TEPNo final dos anos 40, Papiniano fixou-se no Porto, lugar onde lutou clandestinamente contra o regime fascista de Salazar, usando o pseudónimo Garcia, em homenagem ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca, fuzilado pelos Franquistas em 1936. Foi preso três vezes pela PIDE. Na qualidade de membro do Conselho Português para a Paz e Cooperação, fez várias viagens ao estrangeiro. Numa delas conheceu e tornou-se amigo do poeta Pablo Neruda, então embaixador do Chile em Paris.

A par da escrita e do ativismo político dedicou-se também, afincadamente, à atividade cultural. A partir dos anos 50, com Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Daniel Filipe, dirigiu a revista Notícias de Bloqueio. De igual modo, colaborou nas revistas "Seara Nova" e "Vértice", nesta última tendo sido responsável pelas secções de crítica e de poesia. Integrou os corpos dirigentes do Círculo de Cultura Teatral do Teatro Experimental do Porto.

A Menina Gotinha de Água de Papiniano CarlosNos anos 60, publicou A Menina Gotinha de Água, uma obra de literatura infantil que constitui um dos seus maiores êxitos editoriais e é considerada um título responsável pela renovação deste género literário, nomeadamente no que respeita à sua função na educação das crianças. Livro repetidamente reeditado ao longo dos anos, contou com ilustrações de João Câmara Leme, João Nunes e Joana Quental.

Entre outros livros, distribuídos pela Poesia, pela Dramaturgia e pela Ficção, publicou: Mãe Terra (poemas, 1948); "As Florestas e os Ventos – contos e poemas" (1952); A rosa nocturna (crónicas, 1961); A ave sobre a cidade (poemas, 1973) e O rio na Treva (romance, 1975). Para a infância e juventude escreveu: Luisinho e as andorinhas (1977), O grande lagarto da pedra azul (1989). Está representado nas Antologias Líricas Portuguesas, Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Nueva Poesia Portuguesa, La Poésie Ibérique de Combat. Intelectual incansável, espera ainda reunir toda a sua obra poética num volume só.

A Viagem de Alexandra de Papiniano Carlos, 2008Durante os anos 80 lançou mais um livro infantil – "A Viagem de Alexandra" –, que conta a história da circulação do sangue através do corpo de uma menina, ilustrado por Manuela Bacelar e editado pela Porto Editora, reeditado em 2008 pela Arca das Letras, com novas ilustrações da autoria de Elsa Lé.

Alguns poemas da sua autoria foram musicados por Luís Cília, Manuel Teixeira Ruela, Fernando Lopes Graça, Joaquim Fernandes e Carlos Mendes, como a "Canção de Catarina", de Lopes Graça, dedicada à memória da resistente alentejana Catarina Eufémia.

Dividiu a sua vida entre a escrita e a luta pela liberdade. Foi um dos últimos representantes da segunda geração neo-realista, um divulgador da poesia africana de expressão portuguesa, um grande humanista e militante cultural.
Vivia na Maia com Olívia Vasconcelos, a companheira de sempre, onde veio a falecer a 5 de dezembro de 2012 com 94 anos de idade.
(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)

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