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Memória U.Porto

Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto

Camilo Castelo Branco

Retrato de Camilo Castelo Branco Camilo Castelo Branco
1825-1890
Escritor e romancista

(...)"Seja qual for o lugar que se atribua, na literatura portuguesa, ao assombroso novelista e panfletário, ninguém pode julgar como um entusiasmo apenas
passageiro o crescente culto de Camilo. Há quem estranhe que esse culto seja mais intenso que o de Camões e quem cite outras poderosas individualidades da
nossa literatura, rivais da sua glória, como Herculano e Antero. Sem discutir a justiça de semelhantes reparos, o que não se pode apoucar é a impressionante grandeza
e a emoção que se desprende da obra e da vida de Camilo."

(In Prefácio ao Catálogo de obras antigas e modernas, Livraria João d'Araujo Moraes, 1924.)



Casa na Rua da Rosa, em Lisboa, onde Camilo Castelo Branco nasceuCamilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, na Rua da Rosa da freguesia dos Mártires, a 16 de Março de 1825, no seio de uma família da aristocracia rural. O segundo filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835), solteiro, e de Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira (1799-1827), sua criada, foi registado como filho de mãe incógnita, certamente devido às origens humildes da progenitora. Foi batizado na igreja paroquial dos Mártires, a 14 de Abril de 1825, tendo como padrinhos o Dr. José Camilo Ferreira Botelho, de Vila Real, e Nossa Senhora da Conceição.

Em 1826 a família mudou-se para a Rua da Oliveira da mesma cidade. A 6 de Fevereiro de 1827 e apenas com dois anos de idade, Camilo ficou órfão de mãe, sendo perfilhado pelo pai, juntamente com a sua irmã Carolina, em 1829. Em Lisboa, iniciou os estudos primários, em 1830. Por esta altura, a sua família deslocou-se para Vila Real, onde o pai fora colocado como responsável pelos correios. Os três membros da família regressaram à capital em 1831, após a demissão de Manuel Joaquim por acusação de fraude. Com a morte deste, a 22 de Dezembro de 1835, as duas crianças foram entregues aos cuidados de sua tia paterna, D. Rita Emília da Veiga Castelo Branco. Em 1836 mudaram-se para Vila Real.

Casa de Vilarinho de SamardãEm 1839, quando a sua irmã se casou com Francisco José de Azevedo e foi viver com o marido para casa do irmão deste, o Padre António de Azevedo, na aldeia de Vilarinho de Samardã, Camilo seguiu-os. Neste ambiente rural, que muito viria a influenciar a seu trabalho literário, o clérigo proporcionou-lhe uma educação vocacionada para uma carreira religiosa, na qual não foi descurado o estudo dos clássicos portugueses, assim como conhecimentos primários de latim e francês.
Porém, cedo lhe passou a vocação eclesiástica. A 18 de Agosto de 1841, com apenas dezasseis anos de idade, Camilo casou-se com Joaquina Pereira de França, em São Salvador, e instalou-se em Friúme, em, Ribeira de Pena. Em 1842 foi estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha, para preparar o ingresso no ensino universitário.

Já desaparecido Mosteiro de São Bento de Ave-maria (no lado direito)A 25 de Agosto de 1843 nasceu Rosa Pereira de França Castelo Branco, filha de Camilo com Joaquina. Nesse ano, o jovem fixou-se pela primeira vez no Porto, numa casa da Rua Escura, no histórico e pitoresco bairro da Sé. Em Trás-os-Montes deixara a tia Rita, a mulher e uma filha de meses. Em Outubro, matriculou-se no 1º ano de Anatomia da Escola Médico-Cirúrgica e depois em Química, na Academia Politécnica. Em 1844 frequentou o primeiro ano do Curso de Medicina e no ano seguinte voltou a inscrever-se na Escola Médica, mas perdeu o ano por faltas, uma vez que era mais assíduo frequentador dos ambientes boémios do que das aulas. Começou então a participar nos abadessados ou outeiros de abadessados (certames poéticos que ocorriam nos pátios conventuais e duravam três dias e três noites, nos quais os poetas glosavam motes dados pelas Monjas, que em troca, ofereciam doces e vinho fino) e publicou as primeiras obras poéticas.
Depois de conseguir tomar posse do que restava da sua herança, voltou a Vila Real. Nesta terra perdeu-se de amores pela prima Patrícia Emília do Carmo Barros. Com ela fugiu para o Porto. Em Outubro de 1846 passou 11 dias na Cadeia da Relação (de 12 a 23 de Outubro), por ter sido acusado de roubar 20 000 cruzados a João Pinto da Cunha, pai de Patrícia e amante da sua tia. Nesse período agitado - vivia-se então a guerra civil da Patuleia - iniciou uma carreira de jornalista e continuou a escrever. Depois de libertado, regressou a Vila Real e manteve a relação com a prima Patrícia Emília. Na sequência da morte da sua esposa, Joaquina Pereira, voltou ao Porto, em 1847. Mas a sua atividade jornalística, que desenvolvia no Nacional e no Periódico dos Pobres, trouxe-lhe malquerenças e perigos inesperados que o obrigaram a refugiar-se, primeiro em Covas do Douro, na casa da irmã, e, seguidamente, na Folgosa. Daí partiu de novo para a capital nortenha em 1848.
Neste regresso alojou-se no Hotel Francês, da Rua da Fábrica, e passou a frequentar os cafés, os teatros e os bailes da moda. Integrava, então, o grupo dos "Leões", habitués do café Guichard. Camilo já não era o pobre estudante de outros tempos, mas um homem elegante, reputado jornalista e escritor dedicado aos escritos polémicos e novelísticos. Contudo, a fama também lhe trouxe dissabores e inimizades, sobretudo entre as figuras da elite portuense visadas nas suas obras. Nesse ano morreu-lhe a filha Rosa e nasceu-lhe a filha Bernardina Amélia, fruto da sua relação com Patrícia Emília, criança que foi colocada na Roda dos Expostos, depois temporariamente criada em Samardã e, por fim, entregue à freira Isabel Cândida Vaz Mourão, do portuense convento de São Bento de Ave-maria, amante de Camilo.

Em 1850 passou algum tempo na capital, onde redigiu o seu primeiro romance, Anátema, publicado primeiramente nas páginas do jornal literário A Semana; no ano seguinte, esta obra, que o próprio Camilo afirma ter produzido aos vinte e dois anos e que se pode integrar no tipo de novela enredada e terrífica, foi publicada no Porto. A partir de então, passou a viver do que escrevia. Naquele ano tomou parte na polémica entre Herculano e alguns padres sobre o milagre de Ourique e enamorou-se da escritora Ana Augusta Plácido, noiva de Manuel Pinheiro Alves, embora também se ligasse romanticamente à freira professa já mencionada, que conhecera num abadessado no mosteiro de São Bento de Ave-maria, comemorativo da eleição da abadessa D. Delfina de Andrade. Nesta fase da sua vida, imbuído de um surpreendente fervor religioso que se julga ter sido inspirado na impressão causada pelo exemplo do Dr. Câmara Sinval, lente da Escola Médica, que, já idoso, tomou ordens tornando-se pregador em S. Filipe de Nery, ponderou seguir uma carreira religiosa. Para tal, matriculou-se nas Aulas de Teologia, Dogmática e Moral, do Seminário Diocesano, ao tempo instalado no Paço Episcopal, e chegou mesmo a requerer ordens menores, em 1852, enquanto fundava dois jornais de carácter religioso: O Cristianismo (1852) e A Cruz (1853). Camilo e Ana Plácido em família

Em 1856 foi nomeado diretor literário d' A Verdade. É nessa altura que começa a sentir os primeiros sintomas de falta de visão, tormento que lhe marcaria a vida e provavelmente, lhe precipitaria a morte. Em 1857, instalou-se em Viana do Castelo, onde, trabalhou como redator do periódico A Aurora do Lima. Mas não estava só. Acompanhava-o Ana Plácido, esposa de Pinheiro Alves, que para aí o seguira, com a desculpa de acompanhar uma irmã. Muito rapidamente, esta ligação amorosa viria a tornar-se pública e notória, vindo a causar grandes problemas a Camilo na sua profissão de jornalista. Que, talvez por esse motivo, sofre uma viragem: no ano seguinte, o escritor estará ligado à publicação do jornal O Mundo Elegante. Ainda em 1858, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências, por proposta de Alexandre Herculano, ao qual, apesar da anterior polémica, votava admiração.

Antiga Cadeia da Relação do Porto, actual Centro Português de FotografiaEm 1859, Camilo e Ana Plácido partiram para Lisboa. Mas a vida não estava fácil para os dois amantes que, na prática, eram dois fugitivos, deambulando pelo país e debatendo-se com dificuldades económicas. A 11 de Agosto nasceu Manuel Plácido (1859-1877), filho de ambos, mas que veio a ser registado legalmente como filho de Pinheiro Alves. Em 1860, o marido traído moveu-lhes um processo de adultério que os atirou para a Cadeia da Relação do Porto. Ana Plácido foi presa a 6 de Junho de 1860 e Camilo, que andara fugido no Entre-Douro-e-Minho, entregou-se às autoridades no primeiro dia de Outubro. No cárcere, onde, em abono da verdade, dispunha de algumas comodidades e, sobretudo, não se encontrava exclusivamente confinado a uma cela, Camilo recebeu a visita de D. Pedro V, por duas ocasiões, e escreveu, no prazo record de 15 dias, o seu mais lido e popular romance, Amor de Perdição.

Quinta de S. Miguel de Ceide, em Famalicão (actual Casa-museu de Camilo)Em Outubro de 1861 Ana e Camilo foram julgados e absolvidos por influência do Dr. José Maria Teixeira de Queiroz, pai de Eça, conselheiro do Tribunal, que visitou o escritor várias vezes e o ajudou a preparar a estratégia de defesa neste intrincado processo. Camilo referir-se-á a ele sempre como o "nosso honrado Queiroz" ou o "boníssimo Queiroz", facto que, no entanto, não o impedirá de entrar em polémica com o filho, anos mais tarde.

Em 1862 o casal foi viver para Lisboa, onde nasceu, em 1863, o seu filho Jorge Camilo Plácido de Castelo-Branco (26 de Junho). Nesse ano sobreveio a morte de Pinheiro Alves e o seu "filho" legal, Manuel Plácido, herdou a casa de São Miguel de Ceide, em Famalicão. Foi para esta casa que em 1864 a família se mudou, e onde nasceria, em 15 de Setembro, o terceiro filho do casal, Nuno Plácido de Castelo-Branco. Jorge veio a sofrer de alcoolismo e Nuno teve comportamentos desregrados na sua juventude. Camilo vivia uma época de intenso labor, escrevendo sem cessar e alcançando notoriedade pública.

Contudo, a residência fixa em Famalicão não afastou Camilo do Porto. Nesta cidade passou várias temporadas, continuando a frequentar livrarias e teatros. Ia a banhos em Leça da Palmeira e na Foz, e, finalmente, formalizou a sua ligação com Ana Plácido, com quem casou, na Invicta, em 9 de Março de 1868. Habitou na Rua de Santa Catarina e não deixou de se deslocar, com a família, a Lisboa (onde o encontramos em 1869) e a Coimbra (onde estava em 1875), sob o pretexto de cuidar da educação dos filhos.
Ana Plácido revelou-se, também, uma fiel companheira de letras. Com ela, Camilo fundou e dirigiu, em 1868, A Gazeta Literária do Porto. Em 1872, recebeu D. Pedro II, imperador do Brasil, na sua casa da Rua de São Lázaro, no Porto, e queimou o romance A Infanta Capelista. Em 1873, viajou entre Braga, Porto, Póvoa de Varzim e Lisboa. Em 1878, pioraram os problemas de visão e foi ferido num acidente de comboio entre São Romão e Ermesinde.

Retrato de Camilo Castelo BrancoOs anos oitenta foram bastante turbulentos para este volátil personagem. Logo em 1881 participou no rapto de uma órfã para a casar com o seu filho Nuno (1881), com quem mantinha já uma relação difícil e que acabou por expulsar de casa (1882) numa altura em que se agravam ainda mais os seus problemas de visão. Em 1883, leiloou a biblioteca pessoal, em Lisboa, devido a dificuldades financeiras, e entrou em polémica com o lente de Coimbra, Avelino César Calisto (que criticara o que ele escrevera sobre o Marquês de Pombal) e José Maria Rodrigues (que defendera o lente), na chamada Questão da Sebenta, considerando que "golfam dali gorgolões de ignorância, de tartufismo e deslealdade". Foi mais uma no extenso rol de pelo menos trinta e seis polémicas que se lhe conhecem. Algumas destas discussões redundaram em ameaças à sua integridade física. E, perante a insistência com que lhe eram dirigidas, comprou um revólver para se defender. Irónica e tragicamente, viria a usá-lo sete anos mais tarde para se suicidar. Entretanto, no dia 27 de Junho de 1885, após 15 anos de espera, o Rei conferiu-lhe o título de Visconde de Correia Botelho. Dois anos depois tornou a viajar a fim de tratar do seu problema de saúde, que se agravava cada dia.

Em 1889, por iniciativa de João de Deus, Camilo foi homenageado em Lisboa, no seu dia de anos, por um grupo de intelectuais (artistas, escritores e estudantes). Nesse mesmo ano foi visitado, mais uma vez por D. Pedro II, então ex-imperador do Brasil.

No dia 1 de Junho de 1890, depois de uma derradeira consulta num especialista de oftalmologia, o Dr. Edmundo Magalhães Machado, que matou a última réstia de esperança de curar a cegueira, suicidou-se, como já antes havia ameaçado, com um tiro disparado sobre o ouvido direito. Foi sepultado no jazigo do seu amigo Freitas Fortuna, no cemitério da Lapa, no Porto, lugar que previamente escolhera para sua última morada.

1º Centenário de Camilo Castelo BrancoDeixou-nos uma excecional, multifacetada, polémica e amargurada obra literária, a mais extensa e variada da Língua Portuguesa, com cerca de cento e trinta e dois títulos, distribuídos entre o drama, a poesia, o romance, a novela, o conto, o jornalismo, a polémica, os ensaios (biográficos e históricos), a crítica literária, as traduções e a epistolografia, que reflete o seu intenso percurso de vida, os lugares por onde passou, em especial o Porto, os gostos do Público: o romantismo e ultra-romantismo do início da carreira e o realismo e naturalismo do final, recursos estilísticos estes que usou sobretudo para provar aos seus detratores que os conseguia manejar melhor do que os próprios naturalistas-realistas e as exigências dos editores.
A sua grandeza, no entanto, ressalta na novela passional e como novelista urbano, apesar de não se alhear dos temas campestres aos quais conferiu um especial sentido de humanidade e um intenso perfume psicológico, que inspiraram grandes nomes da literatura portuguesa, como Abel Botelho e Aquilino Ribeiro.
(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)

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