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Memória U.Porto

Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto

Carlos Ribeiro

Fotografia de Carlos Ribeiro Carlos Ribeiro
1813-1882
Pioneiro da Geologia em Portugal, militar, professor,
funcionário público e político

"Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, já tenente, com 30 annos de idade, completava
mathematicas com sinceridade e aproveitamento.
Era de estatura mediana, refeito, de espáduas fortes, rosto redondo, purpurino, com um
pequeno bigode cortado na commissura dos lábios muito nacarinos. Grave nas fallas,
muito delicado em conselhos e attençoens com os cabulas; e sympathisava com a minha
modesta ignorância que elle, confessando a actividade funcional do meu cérebro,
ingenuamente attribuia a eu não possuir compendio de chimica (…)"

(O General Carlos Ribeiro (Recordações da Mocidade) por Camilo Castelo Branco, 1884)



Carlos Ribeiro, filho de José Joaquim Ribeiro e de Francisca dos Santos Ribeiro, nasceu na freguesia lisboeta da Lapa, onde foi batizado a 21 de Dezembro de 1813.

As suas origens humildes e o trabalho no comércio desde tenra idade não contrariaram a sua curiosidade intelectual. Na loja onde laborava, conheceu Filipe Folque (1800-1874), à altura aluno da Real Academia de Fortificação, que lhe emprestou livros e lhe proporcionou explicações. Com o consentimento do patrão e o apoio de Francisco José de Freitas Rego, realizou estudos que lhe permitiram alcançar uma formação académica.

No contexto das guerras liberais, Carlos Ribeiro ingressou na vida militar (1833), mas com o fim do conflito, em 1834, voltou a estudar. Primeiro, frequentou a Academia Real de Marinha, onde obteve dois prémios, e em seguida ingressou na Real Academia de Fortificação, Artilharia e Desenho, completando a sua formação na Escola do Exército, que sucedeu à Real Academia.

Uma vez concluídos com distinção os cursos de Artilharia e de Engenharia, ascendeu ao posto de Oficial a 28 de Julho de 1837.

Retrato de José Vitorino Damásio

Dois anos mais tarde estava aquartelado em Elvas, onde viveu cerca de ano e meio. Nesse período da sua vida estabeleceu relações com a família de Nery Salgado.

Em 1840, o Primeiro-tenente Ribeiro transitou do 2.º para o 3.º regimento sedeado no Porto e iniciou estudos em Geologia, uma área de investigação nova em Portugal. No Porto, ingressaria na Academia Politécnica do Porto, escola onde obteve 4 prémios pecuniários e uma distinção, e conheceu o lente José Vitorino Damásio.

Em 1844, depois de concluídos os estudos na Academia, realizou alguns estudos práticos de geologia nos arredores do Porto, em cujo âmbito reuniu as suas primeiras coleções.

Dois anos mais tarde casou com Úrsula Damásio, irmã de José Vitorino Damásio, da qual teve três filhos: José Vitorino, Zélia e Sofia.

Pouco tempo depois, trocou a vida militar pelo trabalho na Companhia das Obras Públicas de Portugal. No Inverno de 1845 ficou incumbido de dirigir a construção da estrada Lisboa-Caldas da Rainha, transitando depois para a chefia dos trabalhos de abertura da estrada Carvalhos-Ponte do Vouga. Todavia, estas obras foram suspensas na sequência da revolta da Maria da Fonte, à qual Ribeiro aderiu, o que viria a custar-lhe uma pena prisional e a retirada do serviço militar.

Passadas as atribulações políticas, e por um curto espaço de tempo, Carlos Ribeiro lecionou no Arsenal do Exército até 1849, ano em que passou a integrar os quadros da Companhia Farrobo e Damásio. Enquanto empregado desta firma realizou viagens de estudo pelo país, por si custeadas, durante as quais reuniu espólios nas áreas de petrografia e paleontologia, que depois viriam a ser integradas na coleção da Comissão Geológica do Reino.

Nesta fase da sua vida, relacionou-se com o médico A. A. da Costa Simões, lente da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Em 1850 conheceu o geólogo inglês Daniel Sharpe (1806-1856), que visitara o país e publicara trabalhos sobre Geologia Portuguesa. A revisão científica desses trabalhos, que ficou a seu cargo, viria a trazer-lhe o primeiro reconhecimento internacional nesta área de investigação.

Em 1852, Carlos Ribeiro foi convidado a chefiar a 4.ª secção da Repartição Técnica da Direção Geral de Obras Públicas, responsável pelas pedreiras, minas e trabalhos geológicos. Seria ele, com F. A. Pereira da Costa (1809-1888), lente de Mineralogia, Geologia e Princípios de Metalurgia, da Escola Politécnica de Lisboa, a preparar a primeira lei de minas em Portugal.

Entre 1852 e 1857 esboçou a carta geológica da região entre os rios Douro e Tejo, a partir da carta militar inglesa de James Wyld e realizou o esboço geológico do Alentejo sobre a carta de Bonnet, duas obras que se encontram na base da carta geológica geral. Da mesma forma, usaria as cartas de Verneuil e Coulomb para traçar a carta geológica da Península Ibérica.

Em 1857 foi nomeado diretor da Comissão Geológica, cargo que partilhou com Pereira da Costa. Esta comissão, que tinha por objetivo a criação de um mapa geológico de Portugal, foi dissolvida em 1868 e convertida no ano seguinte numa secção da Direção dos Trabalhos Geodésicos. Nela, Carlos Ribeiro ocupou o cargo de diretor da 5.ª Secção da Direção dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino até ao fim da vida, vindo a suceder-lhe, nesse lugar, Nery Delgado (1835-1908).

Entretanto, em 1858 viajou pela Europa, onde teve oportunidade de conhecer uma série de especialistas, com os quais haveria de manter correspondência. Em 1859 foi nomeado chefe da Repartição de Minas, Geologia e Máquinas-a-Vapor.

Fotografia de um achado arqueológico do complexo mesólitico Concheiros de MugeEm 1863, encetou pesquisas no domínio da Pré-História. A ele se deveria a descoberta dos célebres concheiros de Muge do Mesolítico (classificados em 2011 como Monumento Nacional), enquanto procedia ao estudo dos terrenos terciários do vale do Tejo. Anos mais tarde, o interesse internacional sobre o Terciário e a evolução do Homem juntamente com o entusiasmo de Ribeiro permitiram a realização em Lisboa do IX Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-Históricas.

Fotografia de Paul ChoffatNos anos subsequentes, foi nomeado para a comissão responsável pela proposta de classificação e graduação do pessoal técnico do MOPCI (Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria) e de propor a reorganização do ensino industrial (1864). Publicou um estudo percursor sobre a arborização geral do país, em 1868, e o seu mapa geológico de Portugal Continental foi enviado à Exposição Internacional de Paris de 1878, onde alcançou uma medalha de prata. Este mapa foi posteriormente revisto e atualizado por Nery Delgado e pelo geólogo suíço Paul Choffat (1849-1919), cientista que Ribeiro conhecera naquela exposição.

Teve ainda tempo para uma breve passagem pelo mundo da política. Foi deputado nas legislaturas de 1870-1874, 1880-1881, tendo co-apresentado, em 1872, um relatório sobre o Imposto Predial.

Integrou diversas sociedades científicas nacionais e internacionais e alcançou reputadas condecorações.

Carlos Ribeiro, considerado um dos pais da Geologia portuguesa, pioneiro no reconhecimento da sucessão estratigráfica dos terrenos de Portugal Continental e inaugurador do trabalho de campo como ponto fulcral do estudo da Geologia, faleceu em Lisboa, a 13 de Novembro de 1882, na sua casa da rua do Arco das Amoreiras, vítima de complicações hepáticas e cardíacas.

Em 1887 foi instituída a Sociedade Carlos Ribeiro, que veio a ter como órgão cultural a "Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes" (editada a partir de 1889).
(Universidade Digital / Gestão de Informação, 2011)

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