Resumo (PT):
Introdução: O cancro da cabeça e pescoço (CCP) é mais prevalente em fumadores, ex-fumadores e indivíduos com hábitos etílicos pesados. As opções terapêuticas e o prognóstico variam de acordo com fatores epidemiológicos, localização anatómica e estágio. A cirurgia (isolada ou combinada com outras terapias como a radio e/ou quimioterapia) desempenha um papel central no tratamento destes doentes. No entanto, não é isenta de efeitos adversos, acarretando risco de complicações pós-operatórias, as quais condicionam morbilidade e mortalidade precoce. Assim, torna-se fundamental avaliar o risco cirúrgico para identificar os doentes que apresentam um perfil de maior suscetibilidade, os quais poderão, por exemplo, ser encaminhados para programas de otimização pré-operatória, destinados a aumentar a reserva fisiológica dos doentes. A avaliação da fragilidade tem vindo a mostrar-se um importante recurso para avaliar a reserva fisiológica e identificar os doentes que apresentam um risco de desfecho pós-cirúrgico mais grave. No entanto, a sua utilização em doentes com CCP carece de validação. Permanece também por explorar a relação entre a severidade da fragilidade, aptidão física e o nível de atividade física.
Objetivo: 1) a utilidade da avaliação da fragilidade para identificar os doentes com CCP mais suscetíveis a complicações pós-cirúrgicas e a tempo de internamento mais prolongado e 2) avaliar a associação entre a severidade da fragilidade, aptidão física e nível de atividade física.
Material e Métodos: Realizamos um estudo observacional, longitudinal, prospetivo. Os doentes foram recrutados no IPO-Porto. Após consentimento informado, foram recolhidas informações socio-demográficas e clínicas e avaliamos a severidade da fragilidade (o modelo fenotípico de Fried), aptidão física (Senior Fitness Test) e atividade física (acelerometria). A informação sobre as complicações e tempo de internamento foram obtidos por um observador externo ao estudo.
Resultados: A amostra foi constituída por 83 doentes, média de 60 anos, sendo 85,5% do sexo masculino. Relativamente à prevalência da fragilidade, 53% eram pré-frágeis e 20,5% frágeis. A severidade da fragilidade esteve associada a tempo de internamento mais prolongado (>5 dias). Na aptidão física, houve diferenças significativas nos testes de aptidão cardiorrespiratório (p=0,016), força de membros inferiores (p=0,008) e membros superiores (p=0,008) quando comparados os frágeis com os robustos, estando estes últimos mais aptos. Os doentes apresentaram uma média de 402,0 min em tempo sedentário (SED) e apenas 18,9 minutos em Atividade Física Moderada-Vigorosa (AFMV) diária. Comparativamente aos doentes classificados como “robustos”, os doentes “frágeis” apresentavam níveis inferiores de AFMV diária (p<0.006) ou semanal (p=0,014).
Conclusão: Os dados encontrados sugerem que este grupo específico de doentes oncológicos têm uma elevada percentagem de fragilidade e pré-fragilidade, a qual se associou a maior tempo de hospitalização. Verificamos ainda que a severidade da fragilidade se associou com menores níveis de atividade física e de aptidão física. Os nossos dados reforçam a relevância de estudos futuros que avaliem o papel da pré-habilitação com exercício físico para reverter a severidade da fragilidade e mitigar o risco cirúrgico associado.
Language:
Portuguese