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Ciclo de Encontros sobre Alimentação no Pensamento Português Contemporâneo

26 de fevereiro a 21 de maio

Ciclo de Encontros sobre Alimentação no Pensamento Português Contemporâneo

 18h00 | Reitoria U. Porto

ENTRADA LIVRE

Ao longo de Quatro Sessões procurar-se-á dar conta do modo como a Alimentação foi sendo tratada no pensamento português contemporâneo. Propomo-nos demonstrar não só a singularidade de cada proposta teórica no contexto da cultura portuguesa, mas também de que modo é que este tema se impõe de forma muito mais poderosa do que até aqui tem sido reconhecido no tratamento destes autores, desempenhando função e lugar decisivo na economia interna das suas obras. Começaremos por traçar no ambiente cultural da passagem do século (XIX-XX) alguns veios que contextualizarão algumas das posições teóricas que descreveremos: referimo-nos ao tolstoismo e franciscanismo, aos evolucionismos e à crítica etnográfico-histórica das religiões, movimentos de fundas consequências filosóficas. Daremos especial destaque ao ambiente intelectual da Renascença Portuguesa (1911-1932).

I - 26 FEV

Iniciaremos o nosso percurso cronológico com Guerra Junqueiro e a sua Oração ao Pão (1902), que nos permitirá explorar a simbólica tradicional do pão, como alimento por antonomásia (lembremos o Padre Manuel Bernardes em Pão Partido em Pequeninos, 1694), mas em radicalizadas conexões religiosas, mito-poéticas, sapienciais e até sócio-políticas: Veja-se por exemplo: E cada homem, quer o rei, quer o mendigo / É na seara de Deus um grão de trigo. E noutro passo: Comer é comungar. Ajoelha, orando / Em frente desse pão, ou duro ou brando. / Antes que o mordas, tigre carniceiro, / Ergue-o na luz, beija-o primeiro! (…) São dez mil almas, brancas cor de lua, / Transmigrando divinas para a tua.

II - 26 MAR

Debruçar-nos-emos de seguida sobre a obra de Sampaio Bruno, em A Ideia de Deus (1902) mostrando como a sua proposta de alimentação química visa uma consequente redução de todo o aparelho metabólico, libertando a energia vital humana para as funções superiores, constituindo assim um original evolucionismo que toma o Anjo como modelo do ser humano, vendo a história não como um processo cumulativo conducente do passado à actualidade, mas sobretudo como uma subtil interferência do futuro no presente no sentido da transformação espiritual: O homem do futuro, superior ao homem do presente, poderia vir, sim, mas oriundo do esforço pelo actual homem feito no fito de deixar de espalhar a morte para viver. Seu descendente seria seu galardão, como de obra que, aproveitando-lhe, à vida universal aproveitasse.

III - 23 ABR

De seguida, mostraremos como Teixeira Rego, na sua Nova Teoria do Sacrifício (1918) relê o mito do Génesis, mito do Pecado Original e da Queda como narrativa universal que expressa a memória arcaica da transformação radical dum antropóide prévio no ser humano actual suscitada pela transformação da alimentação frugívora em carnívora, alterando assim completamente a estrutura biológica e mental do ser humano: Esta mudança de regime foi, quanto a nós, o facto capital da vida da espécie, pelas consequências que acarretou. À vida livre, ociosa, arborícola, frugívora, do antropóide na floresta, sucedeu a necessidade de caçar a presa, o desenvolvimento do cérebro, diuturnamente ocupado nos ardis da caça, as doenças ocasionadas por alimentos a que o seu organismo não estava habituado, a necessidade de defesa contra os animais que, reagindo, passassem de perseguidos a perseguidores, e, seguidamente, os rudimentos da civilização, mercê do desenvolvimento mental, os excessos sexuais com a quebra da normal periodicidade, a família, as habitações, a fabricação de instrumentos e a guerra com todos os seus horrores. Foi a origem do bem e a origem do mal.

Neste ponto, mostraremos o debate suscitado pela posição de Rego, dando conta das críticas de Teixeira de Pascoaes que repudia o seu aparente pessimismo antropológico, contrapondo-lhe o optimismo solar de Leonardo Coimbra: Ao pessimismo de Teixeira Rego prefiro o optimismo de Leonardo Coimbra, de menos sugestões artísticas talvez, mas profundamente humano e social – , útil à vida da nossa Nacionalidade, faminta dum novo sangue que a vitalize e duma nova estrela que a oriente. Pascoaes, no entanto, virá mais tarde a reassumir o legado de Rego, radicalizando-o no seu biografismo dramático-cósmico, onde vem a identificar a alimentação em geral, especialmente a carnívora, com a antropofagia. Abordaremos de seguida a teorização de Agostinho da Silva, em boa medida devedora de Rego, seu mestre de filologia, marcando toda a elaboração teórica do autor de Aproximações, que na teoria da alimentação faz entroncar o seu original messianismo e utopismo, descrevendo um homem primordial que se encontrará com o homem futuro: em contacto perfeito com a Natureza. Eram então extremamente alegres, fidelíssimos às instituições monogâmicas, dando perfeita igualdade de tratamento às mulheres, incapazes de castigar as crianças, e sem nenhuma espécie de propriedade, sem organização social e sem nenhum vestígio de religião organizada.

IV - 21 MAI

Por fim, descreveremos a importante, embora desatendida, reflexão de Pinharanda Gomes que em Teoria do Pão e da Palavra (1973) não se debruça sobre o que se come ou o como se come, mas sobre o que é comer recorrendo para isso ao reconhecimento de que o alimento e a palavra caminham sempre a par do ponto de vista metafórico e cultural, estabelecendo o aprender e o apreender uma enigmática analogia entre o nutritivo e o educativo, que se constitui como lugar de ocultação e revelação da natureza humana: Apreender teria uma íntima conotação com o ingerir, seria o pródromo refeitoral, o gesto primeiro de uma liberdade correspondente à necessidade nutritiva ou alimentiva. De onde, por analogia, ou pela simbólica da natureza, se superar, do apreender como gesto nutritivo, para o aprender como acto educativo. Concluiremos sinteticamente, a partir dos exemplos dados, intentando estabelecer uma tipologia conceptual das presenças do alimento no pensamento português contemporâneo.

Orador: Rui Lopo (Colaborador do RG “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal” | Instituto de Filosofia da Universidade do Porto)

Moderação: Maria Celeste Natário (Coordenadora do RG “Raízes e Horizontes da Filosofia e da Cultura em Portugal” | Instituto de Filosofia da Universidade do Porto/ CETAPS)

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