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Das ligações (espaço de pausa ou realidade sem tempo)

13 de novembro a 21 de dezembro

Das ligações (espaço de pausa ou realidade sem tempo)

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O edifício da Reitoria da UP situa-se no centro do turbilhão da actual realidade dominada pela massificação do turismo na cidade. É uma realidade nova, mas que está (já) a modificar a percepção da espacialidade da cidade. Uma das alterações vivenciadas por todos, nos nossos dias, é aquela que remete para uma maximização do interesse por tudo, quer dizer, uma espécie de viagem contínua pela superfície epidérmica das coisas sem nunca manter qualquer hipótese de aprofundamento ou de paragem. Ver o máximo no mínimo espaço de tempo, eis uma boa imagem para a realidade do espaço urbano central da cidade habitada em larga escala por turistas ávidos de tudo. Não será, por isso, nenhum exagero dizer-se que perante o manancial de possibilidades apresentadas, o tempo escasseia e, por isso mesmo, a primeira hipótese que aparece como possível seria a de uma necessária selectividade. Nada mais distante, contudo, das escolhas do nosso tempo. A ideia tecnológica do multitasking alarga-se ao todo social e introduz-se sub-repticiamente no quotidiano da cidade. Quer dizer, perante a maximização das escolhas, essa selectividade é colocada em posicionamento menor ou mesmo esquecida em favor de uma minimização do tempo despendido no todo, deslocando, assim, a visão que pára e observa daquela que apenas passa os olhos ou, mais assertivamente, aquela que apenas demora o olhar necessário à concretização da selfie...com a intenção de mais tarde recordar. Mas, mesmo essa situação tende a ser ultrapassada por outras que se ultrapassam a si próprias num aniquilar contínuo do Tempo que nos está a conduzir directamente à condição da (im)possibilidade da instantaneidade.

Numa realidade em que nos colocamos na posição de total impaciência perante tudo, em que a passagem do tempo, quando é sentida, se transforma, ela própria, numa espécie de fardo. Se somos impacientes com tudo, então, a arte encontra-se, naturalmente, incluída. Talvez uma das perguntas mais exigentes do nosso tempo para os artistas seja então o que fazer perante tal condição. A temporalidade e as decisões sobre o tempo, condição estrutural dos humanos, torna-se assim num dos elementos políticos mais importante para as práticas artísticas.

O que fazer então?

Talvez a resposta esteja contida numa nova possibilidade que determina o parar como condição activa. Sabemos que em plena euforia moderna com a velocidade, a possibilidade contemplativa esteve sempre debaixo de suspeita por se apresentar como representante de uma arte passada. Sabemos hoje que tal não era nem nunca será verdade. A contemplação, chamemos-lhe activa, para a distanciarmos da sua condição modernista permite a estruturação do pensamento porque determina a paragem. Uma paragem que é, afinal, apenas exterior, já que, no interior, todo o nosso corpo esta a ser abalado pela fruição da obra. É através desse corpo afectado que podemos falar de reactivação da contemplação no nosso tempo sem tempo como elemento político determinante. Longe dos panfletarismos pseudopolíticos, que contribuem decisivamente para a instituição da comunicação como forma unívoca de olhar, a contemplação activa potencia a reflexão e a produção de pensamento, afinal as componentes decisivas da recepção da obra de arte, mas, sobretudo, da sua lógica construtiva. O “fazer saber” da arte não é, afinal, mais que a plena afirmação do que vimos dizendo: quebrando o cisma da teoria e da prática ao possibilitar o levar do pensamento à experimentação da forma, os artistas estão, também, a colocar em prática a sua contribuição para a condição essencial da paragem. Em português a palavra paragem contém dentro de si própria dois verbos antagónicos: parar e agir. É, exactamente, no cruzamento dessas duas condições que se entrelaçam no acto de reflectir que a contemplação se oferece como elemento decisivo numa definição do político para as práticas artísticas contemporâneas. Porque, acima de tudo, coloca uma questão determinante no nosso presente: potencia o acto de pensar. Pensar longe das limitações temporais e físicas do digital (por exemplo dos 140 caracteres do twitter tão utilizado hoje), pensar livremente. E essa é uma das ligações mais importantes: a da intransigência da liberdade de pensar.

As obras que agora podem ser vistas na exposição reflectem na sua forma peculiar de olhar o mundo sobre todas estas questões. Assim haja tempo para serem fruídas...que a sala de exposições da Reitoria se possa transformar numa espécie de cápsula do Tempo exterior ao tempo sem tempo da gentrificação turística apenas regida pelo tempo maquínico dos seus dispositivos digitais portáteis, eis uma das ambições maiores para esta exposição e, contudo, obviamente, uma ambição sem pressas...

Fernando José Pereira

Outubro 2018

 

13 novembro a 21 dezembro 2018
Reitoria da Universidade do Porto
Inauguração às 18:00

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