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Crónica ICBAS News | novembro 2025

Ensino Médico no Porto: mais de 200 anos

A Faculdade de Medicina (FMUP) celebra o bicentenário, o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) comemora o cinquentenário e o Hospital (Real/ Geral) de Santo António assinala os 225 anos de ensino. A história do ensino médico no Porto é marcada por acasos, golpes de asa, sobressaltos cívicos e revoluções, intervalados por plácidos marasmos.

No século XVI, o Hospital de Rocamador incumbia os seus práticos de “ensinar todos os dias”, e assim se manteve no Hospital de D. Lopo e no Hospital Real de Santo António, cujos primórdios foram perturbados pelas invasões francesas, pelo cerco e pela guerra civil. No início do século XIX, o hospital acolheu os cursos da Real Academia Cirúrgica Lusitânica, emitindo diplomas de cirurgião, prático de meia cirurgia, sangrador, endireita e artes correlativas.

O alvará de D. João VI, de 1825, estabeleceu um curso de cinco anos, cinco professores e sete cadeiras na Régia Escola de Cirurgia, acolhida pelo Hospital Real de Santo António da Misericórdia do Porto, exigindo-se aos alunos 14 anos feitos e conhecimentos de Lógica e Latim, habilitando-os em Cirurgia, mas também em Medicina em lugares onde não houvesse formados por Coimbra.

A guerra civil gerou delações, exílios e alistamentos de alunos e professores, liberais e miguelistas, interrompendo o curso. A instituição foi redenominada Escola Médico-Cirúrgica, em 1837, sendo-lhe reconhecidos os diplomas em Medicina e Cirurgia, apenas em 1866 e sem direito a título académico. O edifício próprio, conhecido como “chalé do brasileiro”, foi inaugurado em 1883, admitindo a primeira aluna no ano seguinte. A República equiparou o curso do Porto ao de Coimbra, incluindo o uso da abreviatura "Dr.", e aumentou a duração para seis anos, com trabalho laboratorial. Foi criada a FMUP, incorporando, meses mais tarde, a génese da Universidade do Porto.

No centenário, Maximiano de Lemos publicou a “História do Ensino Médico no Porto”, com desenhos de Abel Salazar, que também terá inspirado o reitor Alfredo de Magalhães nas opções estéticas de ampliação do edifício, concluída em 1935, logo seguida da sua demissão "por influência deletéria sobre a mocidade".

A transferência da FMUP para o Hospital de São João resultou na ausência de ensino no Hospital Geral de Santo António por duas décadas (1960-1980).

O 25 de Abril gerou um clima de criatividade e de utopia, que levou à conceção do ICBAS por Corino de Andrade, um neurologista visionário, Nuno Grande, um espírito vibrante e pragmático, 26 anos mais novo, e Ruy Luís Gomes, o novo reitor, um veterano antifascista. Iniciaram os trabalhos no Seminário de Vilar, sendo a instalação completada por Aloísio Coelho, Pereira Guedes, Neves Real e João Monjardino. A ocupação da antiga FMUP, já em 1976, constituiu uma homenagem irónica a Abel Salazar, cujo nome ficará indelevelmente associado ao edifício de onde foi expulso e nunca readmitido.

Em 1976, contavam-se 200 estudantes, profissionais de outras escolas e de institutos de investigação, retornados de África e antigos exilados políticos, numa mistura viva e interessante. O deslumbramento foi seguido de anos de apreensão, devido a ataques, boatos e entraves ao protocolo com o Hospital Geral de Santo António. A abertura do ciclo clínico da licenciatura em Medicina ocorreu apenas em março de 1980, com alunos da FMUP de meados do século, na qualidade de docentes da nova escola.

Nos últimos anos, todos os cursos do ICBAS tiveram as preferências dos estudantes. O edifício Abel Salazar reabriu em 2025, bonito e elegante, com uma área generosa para o ensino clínico, denominada “Ala Nuno Grande”. As utopias dos fundadores do ICBAS alastraram, sendo assimiladas e adotadas por outras escolas, transformando-se em realidades úteis. 

A FMUP homenageou o Hospital de Santo António e a Misericórdia do Porto, no dia 25 de novembro de 2025. No átrio da Régia Escola de Cirurgia formou-se um cortejo misto, com docentes da FMUP e do ICBAS, que seguiu as arcadas até ao salão nobre do hospital.

Ouviram-se os representantes das quatro instituições, que detalharam o modo como se adaptaram a contextos da história da cidade, da academia e do país.  Joaquim Torres, 95 anos, alumno da FMUP, que foi professor de História da Medicina do ICBAS, diretor do Serviço de Oftalmologia do hospital e presidente do Definitório da Misericórdia, teceu uma ponte simbólica entre todos. 

Os hospitais universitários e as escolas médicas do Porto partilham programas em domínios clínicos, académicos e científicos, sem contrição por divergências passadas.  Continuaremos a ter muito por onde melhorar, cooperando sem dogmas, honrando as referências, preservando e cultivando as singularidades. Provavelmente, será assim.

 

José Barros

Alumno do ICBAS (1980-86); Assistente Graduado Sénior de Neurologia; Professor Catedrático Convidado do ICBAS; Diretor Clínico Hospitalar da ULSSA.

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