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Crónica ICBAS News | outubro 2025

O nome como destino

Poucas pessoas, na Universidade do Porto, conhecerão a vida e obra de José de Letamendi (1828-1897) – e, contudo, a história de uma das nossas escolas encontra-se intimamente ligada a este médico catalão. Letamendi foi um autêntico polímata. Para além das questões médicas, dedicou-se à epistemologia, à filosofia, à literatura, à filologia, à sociologia, à economia, à pintura e à música – tendo-se distinguido neste campo ao tocar diversos instrumentos e compor mais de uma dezena de peças musicais. É famosa, em Espanha, a frase com que justificou o seu modo de estar plural: “Um médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”. Foi também nesta frase que Abel Salazar (1889-1946) encontrou um sentido para a sua existência.

Pioneiro da histologia no nosso país, tendo produzido, nesta área, investigação de impacto internacional, Abel Salazar afirmou-se igualmente na escrita, publicando sobre estética, ética, medicina e política com uma prosa clara e crítica. Na arte, deixou-nos centenas de desenhos, gravuras e esculturas. Muitas das suas obras são marcadas por uma estética do quotidiano e da resistência – porque este docente e investigador da Universidade do Porto nunca dissociou o cientista e o pintor do cidadão. No seu curriculum vitae, escreveu:

Além dos trabalhos científicos, fiz na Universidade cursos sobre a Filosofia da Arte, conferências sobre a Filosofia, onde desenvolvi um sistema de Filosofia que acabo de constatar com satisfação ser bastante próximo da Escola de Viena. Foi o desenvolvimento deste sistema filosófico que, tendo desagradado à Ditadura e ao Catolicismo, foram a causa principal da minha revogação [em 1935]. Mas, como a ditadura não se podia basear nesta questão, ela torneou a questão, fazendo através da sua imprensa uma campanha de difamação, etc., após a qual me demitiu sem processo nem julgamento.

“Nunca fui político” – escreveu Abel Salazar mais adiante no seu curriculum. “Toda a vida me ocupei unicamente da actividade intelectual.” Esta sua última afirmação dá-nos uma chave para compreendermos a sua obra científica e artística: ser “intelectual” é ser comprometido com o mundo, a todos os níveis.  

Na época em que viveu, a atitude de Abel Salazar foi vista como profundamente subversiva; em 1975, contudo, os fundadores do ICBAS/Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar considerá-la-iam irreverentemente inspiradora. Terá sido, na verdade, num gesto conscientemente revolucionário que Corino de Andrade e Nuno Grande criaram o ICBAS, com o apoio incondicional do primeiro Reitor pós-25 de Abril, Ruy Luís Gomes. Queriam fundar uma escola multidisciplinar e multiprofissional, com fortes ligações à comunidade e a instituições de saúde, que não só ensinasse medicina, mas também outras profissões relacionadas com as ciências da vida e da saúde, que investisse no desenvolvimento cultural dos seus alunos e inovasse nas formas de ensinar, aprender e intervir no mundo. Deram a essa ideia de escola, alicerçada no entrelaçamento de saberes, o nome de Abel Salazar. E assim lhe traçaram o caminho.

Cedo começaram os novos cursos, os debates e os projetos, marcados por aquilo a que hoje chamamos interdisciplinaridade, mas que, para os fundadores, era a velha ideia de que tudo se encontra interligado. Décadas mais tarde, o conceito “One Health” (a importância de se unir saúde humana, animal e ambiental) afirmou-se como a evolução natural desse modelo inovador – integrar disciplinas, integrar contextos, integrar sociedade – e também, claro está, integrar cultura. O programa comemorativo dos 50 anos do ICBAS que nos tem vindo a ser oferecido, ao longo deste ano de 2025, mostra, na verdade, como a cultura se encontra inscrita na identidade da escola. Tal sucede não apenas pela qualidade e variedade das atividades propostas, alicerçadas em diferentes expressões artísticas – artes visuais, música, literatura e cinema –, mas pela forma como é estabelecido um nexo entre estas atividades e o debate científico aberto à comunidade. Nem podia, aliás, ser de outra maneira.

Abel Salazar habita os corredores do ICBAS como uma inquietação constante. Tornou-se bússola para todos quantos aprenderam que “o médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”. Há nomes que fundam vocações. No caso do ICBAS, a escolha do nome de Abel Salazar foi uma espécie de pacto com o futuro.

Quando uma escola escolhe um nome, escolhe um destino.


Fátima Vieira
Vice-Reitora para a Cultura e Museus

 

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