Visitei o ICBAS pela primeira vez em 1980, quando o meu marido, Alexandre Quintanilha, aceitou dar aulas durante três semanas no início do verão. Foi também a minha primeira estadia em Portugal e no Porto, por isso as minhas memórias do ICBAS estão misturados com as minhas primeiras impressões sobre a cidade e o país.
A primeira pessoa que me lembro de ter conhecido foi o Nuno Grande, que foi muito simpático e acolhedor comigo. Nos anos seguintes, conheci o Alberto Amaral, a Ana Margarida Damas, a Maria de Sousa, o Pedro Moradas Ferreira e outros professores que se tornariam figuras importantes da escola. Às vezes, saía para almoçar ou jantar com um ou mais deles e com o Alexandre, mas na maior parte das vezes mantinha-me afastado da sua vida profissional. Acho que ambos queríamos isso porque não conhecíamos o país muito bem (o Alexandre cresceu em Moçambique) e, falando por mim, eu receava que a sua relação comigo pudesse comprometer a sua carreira.
Lembro-me de ter ficado impressionado com o granito escuro do edifício do ICBAS e da maioria dos edifícios no centro histórico do Porto. Na altura, não havia praticamente turistas na cidade, por isso passava os dias a passear pelos diferentes bairros, a visitar igrejas, a comer bacalhau e lulas em tascas, a ler junto ao rio ou num dos parques. E a tirar fotografias. Tirei centenas de fotos da cidade durante as minhas primeiras visitas, especialmente dos azulejos.
Fiquei impressionado com o espírito revolucionário dos professores e técnicos que conheci no ICBAS – com o seu compromisso em criar um novo tipo de escola, com ideias e objetivos baseados em valores democráticos e humanísticos. Isso pareceu-me maravilhoso e emocionante.
Mas também fiquei por vezes impressionado com a pobreza da cidade – com os rapazes de 11 ou 12 anos a trabalhar em estaleiros de construção e as jovens vestidas com uniformes de empregadas domésticas, contratadas para limpar as casas das famílias da classe média; com os homens e mulheres que recebiam as encomendas nos correios e assinando fazendo uma cruz nos formulários; com os idosos cujos sorrisos revelavam que tinham ido a um dentista apenas para extrair os dentes. Tanta coisa mudou nas últimas décadas que os anos 80 no Porto parecem agora quase um sonho – um sonho emocionante, cheio de esperança e de um compromisso com a justiça social que gostaria que todos nós ainda tivéssemos, mas também cheio de uma pobreza esmagadora da qual não tenho saudades nenhumas.
Richard Zimler
Escritor