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Faleceu a imunologista Maria de Sousa

Professora Catedrática Jubilada do ICBAS, faleceu aos 81 anos, vítima de Covid-19

A toda a comunidade académica ICBAS,

É com enorme pesar que informamos sobre o falecimento de Maria de Sousa, Professora Catedrática Jubilada do ICBAS, investigadora emérita do IBMC/i3S e Professora Emérita da U.Porto. Maria de Sousa morreu na noite de 14 de abril de 2020, no Hospital São José, vítima de Covid-19.

O falecimento da imunologista deixa mais pobre a nossa comunidade.


"Enquanto diretor do ICBAS convivi hoje, juntamente com tantos que conheceram e privaram de perto com a Professora Maria de Sousa, com uma das piores notícias que poderíamos ter nestes dias tão conturbados pela epidemia, a notícia do seu falecimento. O ICBAS perde uma das suas melhores, um dos padrões de excelência científica e humanista que caracterizaram a nossa história. Em tempos melhores do que os atuais o ICBAS saberá constituir com dignidade o tributo público de que é merecedora.
Enquanto amigo e seu médico, sinto apenas uma grande tristeza e um enorme sentimento de perda. Falámos por telefone diariamente desde o seu internamento até à sua transferência para a UCI. Apesar da sua obvia apreensão, mantinha a postura de guerreira destemida, a mesma com que viveu toda a sua vida. 
A vida da Professora Maria de Sousa não terminou! Prolonga-se para o presente e projeta-se para o futuro através de todos os seus discípulos e de todo o seu conhecimento.
Obrigado Maria de Sousa".

Henrique Cyrne Carvalho, Diretor do ICBAS


"Este é um dia triste, em que somos confrontados com a noticia do falecimento da Prof. Maria de Sousa. Sabemos todos a sua importância no desenvolvimento da Imunologia em Portugal e na formação pós-graduada, assim como o seu envolvimento talvez menos conhecido no Programa Ciência, plano crucial nos anos 90 para o lançamento da Investigação Cientifica em Portugal.
Foi por sua iniciativa que no final dos anos 80, é criado o Mestrado de Imunologia do ICBAS, um grau académico a dar os primeiros passos nas Universidades Portuguesas. Em meados dos anos 90 é novamente percussora na criação do Programa Doutoral GABBA, resultante da fusão de mestrados recém criados na UP, um programa modular interinstitucional e verdadeiramente pioneiro. Para a formação pós-graduada conta com a participação de professores altamente especializados espalhados pelo mundo e  assegura-se que os alunos escolhem o seu programa de tese em total liberdade, muitos deles no estrangeiro.  Eu fui aluno do Mestrado de Imunologia em 1989/90 e mais tarde, durante um período participei na organização do Programa GABBA. Pude ver quanto a Maria se empenhava para que os alunos tivessem uma formação de excelência com os melhores, e quanto se envolvia no acompanhamento dos alunos.
Noutro plano, após o meu doutoramento na Holanda, cujo júri a Maria teve ocasião de participar, integrei em meados de 1996 o seu grupo de investigação. Lembro-me bem de ter organizado a mudança do seu laboratório do edifício velho do ICBAS, no inicio de 1998, para o então novo IBMC no Campo Alegre, de resto fomos um dos primeiros grupos de investigação a instalar-se no novo edifico.  Era todo um mundo novo que começava, lembro-me bem do seu entusiasmo que contagiava todo o grupo. Durante os anos que se seguiram, foram anos muito ricos, cheios de partilhas,  desde idas a congressos, artigos científicos, candidaturas a projetos, discussões cientificas, e sobretudo de conversas e ideias improváveis. Foi por sua influencia que em termos de investigação desenvolvi o interesse da relação entre o metabolismo do ferro e o sistema imunitário, assunto que me dedico atualmente. Pese embora nestes últimos anos, por diversas razões a tenha visto pouco, sempre que a encontrava era um momento especial, de grande alegria e cumplicidade.
A Maria era uma personalidade singular, de uma inteligência acutilante, de pensamento livre e inquieto, mais que tudo uma cientista, as perguntas faziam parte de si. O mundo fica mais pobre por a ver partir, resta-me pensar que parte do seu legado e seguramente as nossas memórias ficarão comigo.
Até sempre Maria, abraço Pedro"

Pedro Rodrigues, Vice-Reitor da U.Porto


"Falando enquanto imunologista e tendo tido o privilégio de pessoalmente partilhar e discutir algumas reflexões com a Professora Maria de Sousa, noto o papel muito relevante que teve na criação e desenvolvimento da área de imunologia em Portugal, tendo presidido à Sociedade Portuguesa de Imunologia. Depois de um percurso científico internacional, onde contribuiu para descobertas fundamentais em imunologia, relacionadas com a biologia dos linfócitos, integra o corpo docente do ICBAS na década de 80, onde cria o Mestrado em Imunologia. Esta formação, que aproximou do nosso país investigadores internacionais de renome, contou entre os seus estudantes personalidades que hoje têm grande relevo no panorama universitário e científico, como por exemplo a investigadora Maria Mota. O Mestrado em Imunologia do ICBAS foi uma das formações da Universidade do Porto que esteve na origem do programa doutoral GABBA, cujo prestígio é amplamente reconhecido, tendo contribuído grandemente para a internacionalização da investigação do nosso país no âmbito da biologia e das ciências biomédicas. De forma mais transversal, a Professora Maria de Sousa contribuiu de forma notória para a consolidação de uma cultura científica em Portugal, intervindo publicamente a vários níveis, que ultrapassaram o âmbito meramente académico.”

Manuel Vilanova, Professor do ICBAS no Departamento de Imuno-Fisiologia e Farmacologia


“Há tanto para dizer sobre a extraordinária senhora que foi a Professora Maria de Sousa. Do ponto de vista profissional, penso que o seu legado fala por si. Sempre foi uma vanguardista e uma profissional de excelência, como poucos neste país. A nível pessoal, perco uma amiga que jamais esquecerei. Relembro em particular e com muito carinho alguns momentos com ela.
Por tudo, o meu muito obrigada, Rosa”

Rosa Lacerda, Técnica Especialista (aposentada) do ICBAS no Departamento de Patologia e Imunologia Molecular


"O convívio com Maria de Sousa era um desafio constante Tive o gosto de conhecer a Professora Maria de Sousa quando chegou ao Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar. Não irei repetir o que já tem sido dito sobre o seu enormíssimo valor enquanto cientista e “Mulher de Ciências e das Artes”, todos reconhecemos o seu mérito e lamentamos a sua perda. Como penso que a Maria gostaria, escrevo sobre o que nos unia e fazia conversar. Era a Ciência e em particular o elemento químico Ferro. Numa viagem de regresso ao Porto vindas ambas de um congresso em Sintra, cuja temática era a Biologia do Ferro, tivemos oportunidade de conversar durante 3 horas seguidas. As perguntas que me colocou sobre o meu trabalho foram tantas e tão pertinentes que, desde logo, fiquei fascinada com a sua argucia e capacidade de questionar e argumentar. O episódio mais marcante foi o dia em que me disse, ou quase me ordenou, no seu estilo muito próprio, “Você tem que fazer um quelante de Ferro que se veja na célula”. Fiquei surpresa e aceitei o desafio. A minha área de investigação foi direcionada para o design de moléculas fluorescentes que respondem à presença do Ferro. A partir daí todo o nosso convívio foi enriquecedor e um desafio constante. Depois da sua jubilação, e quando vinha ao Porto, as nossas conversas passaram a almoços de pizza à beira rio e a longas conversas telefónicas, sempre a falar de Ciência. Esta é a nossa história, mas estou certa que se repete com muitas pessoas que conviveram e foram influenciadas pela Maria de Sousa. Estou certa que a melhor homenagem que podemos prestar à Maria de Sousa é prosseguirmos o nosso trabalho e contribuir para o desenvolvimento da Ciência em Portugal e no Mundo.
Muito obrigado Maria"

Maria da Conceição Rangel, Professora do ICBAS no Departamento de Química


"A Professora Maria de Sousa era uma grande mulher, uma grande cientista, que nos deixa um enorme legado de rigor e excelência numa carreira cheia de sucessos. Para mim a Maria foi sempre uma fonte de inspiração e de amizade ao longo de toda a minha carreira em Portugal. Conheci a Maria quando cheguei a Portugal e sempre me impressionou a sua inteligência, a sua frontalidade, lealdade e sentido de missão. Ficamos todos mais pobres com a sua partida, mas será sempre recordada como uma das pessoas mais influentes no desenvolvimento da ciência em Portugal. Como colega no IBMC recordo todas as suas contribuições que fizeram desta instituição uma das mais prestigiadas de Portugal. Não posso deixar de expressar a grande tristeza que hoje sinto pela sua partida."

Claudio Sunkel, Professor do ICBAS no Departamento de Biologia Molecular


"Ela teve um começo difícil porque teve de sair de Portugal para desenvolver a sua carreira académica e científica. Chegou a Portugal uns anos antes de mim e eu só a conheci quando vim para cá, no início da década de 1990. Teve várias contribuições em Portugal: a primeira foi insistir muito na altura para que os projectos de investigação que fossem financiados pelo Governo português e avaliados por comissões internacionais, com pessoas que não fizessem parte da ciência portuguesa, para ser mais independente. Teve uma importância muito grande para internacionalizar a avaliação científica em Portugal. Foi professora do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, no Porto, e foi pioneira na criação de cursos graduados que tinham uma filosofia diferente: a de que os alunos que entravam no mestrado poderiam escolher a pessoa com quem quisessem ir trabalhar. Isso hoje já não é original, mas na altura era. E ajudou imenso na criação de várias estruturas de investigação; ajudou-me a mim na concretização do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), foi uma da meia dúzia de pessoas que muito contribuíram para que o IBMC crescesse da forma que cresceu. 
Ela era muito assertiva e muito crítica do que muitos de nós queríamos fazer e isso é sempre uma enorme vantagem em ciência. Ter pessoas que nos dizem só “sim” não ajuda nada. Ela teve o espírito muito científico, crítico e analítico em relação àquilo que fazia e muitos de nós devemos-lhe imenso. Ela veio para Portugal numa altura em que havia muito pouca ciência. Se calhar até me ajudou a mim na decisão de vir para Portugal, deu-me alguma coragem para me aventurar. Serviu de exemplo. É, para todos nós, uma enormíssima perda.
Com esta questão da pandemia a preocupar-nos tanto, ficou a ideia de que é fundamental que as decisões políticas sejam baseadas no conhecimento, principalmente quando ainda não sabemos muito. A política não tem o luxo do tempo; o conhecimento tem tempo para se tornar mais sólido e robusta. A política não. Também ajuda a perceber que muitas vezes decisões políticas têm de ser tomadas com informação insuficiente na altura. É por isso importante reorientar a política conforme o conhecimento vai crescendo. E a Maria teve um papel importante a divulgar essa noção."

Alexandre Quintanilha, Deputado, Físico e Professor Universitário Jubilado ICBAS


"Conheci a Maria em 1979 durante uma reunião de Imunologia que, à data, decorria em Paris. Foi o Prof. Arala Chaves quem ma apresentou. Maria convidou-me a tomar um café e, para meu espanto, contou-me que já tinha informações sobre mim e sobre a área de trabalho. Num ápice convidou-me para ir trabalhar para o seu laboratório (de Ecologia Celular) em Nova Iorque. O interesse da cientista estava retratado nas diversas hipóteses de trabalho que colocou sobre a mesa. À época o seu interesse principal era o ferro e o papel deste no sistema imune. O modelo que estudava era nos doentes talassémicos, mas a hemocromatose era o alvo que lhe interessava. Desconhecia casos em Nova Iorque. No Porto o Prof. Nuno Grande tinha-me pedido para estudar um doente com suspeita (posteriormente confirmada) de padecer dessa entidade. Um grupo francês, de Rennes, com quem eu tinha colaboração científica nessa área – Drª Rennée Fauchet, do Laboratório de Histocompatibilidade e Prof. Marcel Simmon, era pioneiro no estudo dessa doença. Estabeleceu-se uma rede de colaboração que permitiu à Maria explorar o modelo humano para o estudo da relação ferro-sistema imune. Em 1980, em Nova Iorque, em trabalho no laboratório de Maria de Sousa, tivemos a oportunidade de perceber que essa relação estava dependente do sistema HLA. A compreensão dessa relação foi determinante para as investigações subsequentes. E foi também determinante para o futuro do seu trabalho. Para preparar esse futuro foram decisivos os primeiros contatos  - que insistimos se concretizassem - com os Professores  Corino de Andrade e Nuno Grande, e que ocorreram em 1981, e também para a decisão que tomou, de trabalhar definitivamente no ICBAS, o que aconteceu em 1985. Ou, como 35 anos depois, em 3 de Maio de 2016,  Maria considerou, a propósito das conversas tidas em 1981 que “foram  meus pastores fieis da minha entrada no Porto e do meu conhecimento de Corino de Andrade”.
Tantos já falaram na importância de Maria de Sousa na Ciência e na Cultura Científica do País. Poderei testemunhar essa importância de outro modo. Como Presidente da Sociedade Portuguesa de Imunologia impunha  o cuidado do cumprimento de tempos e tarefas;  organizou a vinda e inclusão de Prémios Nobel nas Reuniões Nacionais da Sociedade (de Niels Jerne a Susumu Tonegawa  - apenas para recordar algumas celebridades); criou a Biblioteca da Sociedade com acesso livre para os membros e encontrou uma Sede para reuniões. Recordo a personalidade da Maria, oscilando entre a Música e a Medicina – que teve de escolher quando terminou o liceu – e como essa bivalência continuou nos diferentes lugares onde trabalhou. Resolvia-a tocando partituras nos pianos que ia alugando ou ainda o orgão ali perto do ICBAS, no Carmo. Mas a sua heterogénea personalidade dava-lhe ainda tempo para a escrita. E fazia-a bem. Textos – boas peças literárias – também trocadas com o seu amigo  Agostinho da Silva e poemas em diversas circunstâncias (o último em 3 de abril de 2020, dedicado a todos nós, os vivos do COVID19). E, recordo com saudade, como foi aquela discussão a 5 num jantar que a Maria promoveu, e em que nós - Maria incluída -  ficamos em silêncio (das entradas ao café) a escutar a conversa inolvidável entre Corino de Andrade e Agostinho da Silva. E, por fim, recordo-a como Professora que  pôs de pé não só o Departamento de Patologia e Imunologia Molecular no ICBAS, bem como o GABBA – o primeiro verdadeiro programa doutoral “transversal” à Universidade, desenvolvendo um extenso e profícuo trabalho no IBMC e no I3S. 
Em 1981 June Goodfield, então Senior Research Associate at the Rockefeller University, no seu livro “An Imagined World – A Story of Scientific Discovery, Harper & Row, New York, 1981” fala-nos de uma cientista “Anna Brito” – ou seja Maria de Sousa – que deixou o seu país para se dedicar à ciência e regressar depois. Nesse livro relata o percurso dessa cientista que fez um trabalho a todos os títulos notável “Between solitude and solidarity” demonstrando, logo no início da chegada a Nova Iorque, que “was interested on Hodgkin’s Disease” não apenas pelo que então se buscava, o ser uma doença causada por um vírus, mas querendo saber porque é que algumas células - os linfócitos - desapareciam do sangue periférico. E fazia-o não apenas com argúcia e persistência, mas também com a discrição que os cientistas e as conquistas da ciência devem ter.
Anna Brito, ou seja MARIA DE SOUSA, deixou-nos em 14 de Abril de 2020 “between solitude and solidarity” como este tempos nos aconselham."

Maria Berta D. Silva, UMIB/ICBAS


“[…] A Maria adorava usar citações filosóficas, os seus trabalhos estão repletos delas e as suas conversas eram ilustrados por sabedorias novas e ancestrais, muitas vezes hilariantes. Eu só por uma vez usei uma citação, e foi para ela. Nesta hora de despedida, aqui fica a segunda, e última, e que melhor do que as minhas palavras conseguem reflectir o que me vai na alma. A Maria a saberá entender.
“When I was a boy of 14, my father was so ignorant I could hardly stand to have the old man around. But when I got to be 21, I was astonished at how much the old man had learned in seven years.” ― Mark Twain.
Muito obrigado por tudo, descanse em paz.” [texto Integral]

Alexandre Carmo, Investigador do i3S e Professor convidado do ICBAS no Departamento e Biologia Molecular


"Conheci a Professora Maria de Sousa pouco após a sua chegada ao Porto e ao ICBAS, quando no final do curso de Medicina ensaiava os primeiros passos de uma carreira de investigação. Fui talvez o primeiro de uma longa lista de jovens que enviou para fora, no meu caso para o Hospital Karolinska, em Estocolmo, ainda no período pré-GABBA, contribuindo fortemente para a internacionalização da ciência em Portugal, quanto a mim um dos aspetos mais positivos da sua influência no definhado panorama nacional. Não mantive uma relação pessoal próxima com a Professora Maria, e do seu papel no desenvolvimento institucional nos anos que se seguiram outros falarão melhor do que eu. No entanto, não posso deixar de recordar aquilo que pude mais tarde apreciar, enquanto colaborador no projeto de ensino que liderou, até à sua aposentação. De uma grande sensibilidade artística e sempre ligada às artes (relembro, por exemplo, que a certa altura conseguiu ter acesso à Igreja dos Carmelitas, ao lado da faculdade, onde regularmente tocava órgão) virou o ensino da Patologia de pernas para o ar, iniciando as aulas práticas com uma visita guiada ao museu Soares dos Reis, com o pretexto (?) de espevitar a capacidade de ver e observar dos alunos, acompanhado da análise crítica de obras de arte que pontuavam as suas aulas teóricas. É algo que recordo com alguma nostalgia, e que exemplifica bem algumas características da sua personalidade, nem sempre fácil: a sua coragem e determinação, e a sua capacidade de inovar e correr riscos, de que muitos de nós sentiremos falta."

Paulo Pinho e Costa, Investigador do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e Professor convidado do ICBAS


"A Professora Maria de Sousa deixou-nos mas continuará a ser uma enorme fonte de inspiração também para os clínicos.
A sua ligação mais conhecida ao Hospital de Santo António foi com a Professora Graça Porto na área da hemocromatose, mas lembro-me de outros trabalhos como o desenvolvido com o Dr. Amaral Bernardo e Dra. Fátima Farinha em doentes com artrite reumatoide. Seguramente o Professor João Castro e Melo, diretor do serviço de Imunologia do Hospital de Santo António, falecido em 2019, que a sucedeu na Sociedade Portuguesa de Imunologia e com quem tanto contatou poderia dizer muito mais.
Quando a área da Imunologia Clínica do nosso hospital comemorou 30 anos convidei-a e não esquecerei as suas palavras : “ A mais convincente vitória de imunidade: ainda é do Jenner... O resto, Carlos, mesmo a auto-imunidade, tem vindo à boleia dessa grande observação original.”
Em 2016 quando lamentei não poder estar presente na homenagem que a SPI lhe fez na ocasião dos 50 anos do seu seminal artigo sobre a área dos linfócitos T escrevia “Considero-me imensamente afortunada por estar viva para ver como o progresso das técnicas só a tornou mais fácil de ser vista por todos e mais bela, com a introdução dos anticorpos monoclonais e a imunofluorescência. Afortunada sobretudo por ter vindo literalmente "cair" numa geração de gente nova em Portugal que se dá ao trabalho de reconhecer o trabalho de uma velha senhora.” E terminava: “Enjoy Viana, cidade de que eu gosto imenso. Já lá foi ao Museu? Se tiver tempo, não deixe de ir. O Norte de Portugal tem dessas surpresas. A maior está em Amarante.”
Sim, fica para sempre a inspiração, o exemplo, mas faz muita falta uma Grande Senhora como a Maria, tão imensamente capaz de ver a beleza das coisas, na ciência e na vida."

Carlos Vasconcelos, Antigo Diretor da Unidade de Imunologia Clínica do CHUP e Professor convidado do ICBAS


Maria de Sousa é uma das protagonistas de três capítulos de “A História dos homens que inventaram um sonho”, escrito por Rui Martins e Corália Vicente, um livro que revisita os mais de 40 anos de história do ICBAS.


Um tributo do Departamento de Patologia e Imunologia Molecular


Sobre Maria de Sousa

Nascida em Lisboa em 1939, Maria Ângela Brito de Sousa licenciou-se em Medicina em 1963, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Cedo emigrou para prosseguir a sua carreira académica científica. Primeiro em Londres, entre 1964 e 1966, como bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, esteve nos Laboratórios de Biologia Experimental em Mill Hill. Foi na capital da Inglaterra que fez a grande descoberta da área timo-dependente (1966), hoje conhecida universalmente por área T, e que percebeu a migração organizada dos linfócitos, descobertas que constam em qualquer manual de imunologia.

Quando deu o nome à migração organizada dos linfócitos, “ecotaxis”, Maria de Sousa já tinha partido de Londres rumo à Escócia, em 1967, onde se doutorou em imunologia, na Universidade de Glasgow. Em 1975, partiu para os Estados Unidos, onde dirigiu o Laboratório de Ecologia Celular do prestigiado Instituto Sloan Kettering para a Investigação do Cancro (em Nova Iorque), e foi investigadora nas Faculdades de Medicina de Cornell (em Nova Iorque) e de Harvard (em Cambridge, Boston).

Regressada a Portugal para estudar doentes com hemocromatose hereditária, em 1985 tornou-se professora catedrática de imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), onde fundou o Mestrado em Imunologia.

Enquanto docente e investigadora da U.Porto, liderou a junção de três mestrados (1996), resultando na criação do Programa Graduado em Biologia Básica e Aplicada (GABBA), o primeiro programa doutoral em Portugal; e constituiu uma inovadora equipa de investigação no campo da hemocromatose, dividida pelo ICBAS, Centro Hospitalar Universitário do Porto e Instituto de Biologia Celular e Molecular (IBMC), uma das entidades que deu origem ao atual Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, i3S, onde foi investigadora honorária.

No Salão Nobre do edifício histórico da Reitoria da Universidade do Porto, a Professora Catedrática de Imunologia (1985-2009) proferiu a sua Última Aula, na sua jubilação em 2009, e, em 2010, foi-lhe atribuído o título de Professora Emérita da Universidade do Porto.

Maria de Sousa foi distinguida com o Bial Merit Award in Medical Sciences (1994), o Prémio Estímulo à Excelência, atribuído pelo Ministério da Ciência Tecnologia e Ensino Superior (2004), o Prémio Universidade de Coimbra (2011), o Prémio Universidade de Lisboa (2017) e o Prémio Mina Bissel (2018).

Foi ainda condecorada com graus de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique- (1995), de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2012) e com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (2016).

Em 2018, juntamente com Corino de Andrade (1906-2005) e Nuno Grande (1932-2012), foi homenageada nos «Seminários Livres de História da Medicina», onde o ICBAS distinguiu figuras paradigmáticas das Ciências Médicas.



"Maria de Sousa: Mais de 40 anos dedicados à Ciência", entrevista de 2010 à Revista Trimestral ICBASPress.


Professora Maria de Sousa

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