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Obrigado, João.

Singela homenagem

  João Carvalheiro 


João Manuel Serra Carvalheiro iniciou funções no recém-criado ICBAS em 1976, quando tudo estava por fazer, e só parou aquando da sua reforma, em 2013. Participou ativa e apaixonadamente na materialização de um sonho que hoje é a instituição de referência nacional e internacional das Ciências da Saúde e da Vida. Dedicou o corpo e a alma aos desafios de, nas condições mais adversas, fazer acontecer tanto do que hoje somos. Vestiu, com amor genuíno, a camisola do ICBAS. Trabalhou energicamente com professores, trabalhadores não docentes e estudantes nas mais diversas atividades. Abraçou o espírito de equipa. E continuou a privilegiar as antigas e as novas gerações do ICBAS com as suas memórias; com a paixão com que contava as verdadeiras aventuras de trabalhar, tantas vezes com tão poucos recursos, mas com uma gigante vontade; com o condão de nos inspirar a vestir com o mesmo amor genuíno a camisola para fazer acontecer o impossível.   

Hoje despedimo-nos da sua passagem física. Mas o seu legado, que somos todos nós, ficará para sempre na nossa história. Porque o João marcou categoricamente o passado e faz parte do nosso presente. Mas, e acima de tudo, porque se tornou referência do espírito ICBAS que, reconhecidamente, nos inspirará. Para sempre.

 

Deixamos aqui algumas das suas histórias:

 [Na Anatomia] “Foi ainda necessário improvisar um laboratório de Medicina Experimental numa zona próxima do telhado. O esforço foi explicado por Nuno Grande: «Depois de criadas as condições mínimas para um ensino com dignidade era indispensável prosseguir com programas de investigação que dessem sentido às propostas iniciais».

Fazer obras tornou-se cada vez mais difícil e os recursos continuavam a ser escassos. Só a grande união entre a comunidade “Icbasiana” serviu para ultrapassar as inúmeras dificuldades, como explica João Carvalheiro, que chegou ao instituto em 1976 como técnico do laboratório de Anatomia. «Andei durante quase três anos a correr todas as manhãs para o Instituto de Medicina legal, na expetativa de colher órgãos doados à Ciência. Na altura, nada tínhamos e era necessário aproveitar tudo o que nos facultassem».

Algum material, como os modelos de esqueleto humano, eram caros e difíceis de obter. Alguns procedimentos resultaram em peripécias inesquecíveis.

«Conseguiu-se um cadáver – conta João Carvalheiro - mas era necessário fazer o respetivo descarnamento. Eu e um colega fomos incumbidos dessa tarefa. Não estávamos habituados. Apenas nos foram dadas algumas instruções. Escolhemos uma noite em que já não estivesse ninguém no edifício. Custou-me imenso. Mas tinha que ser… Olhei para o meu colega. Começas tu ou começo eu? Enchemo-nos de coragem e lá começámos. De repente… ouvimos passos! Tum, tum, tum, tum! Ficámos em sobressalto, assustadíssimos. Apurámos o ouvido mas o edifício ficou de novo mergulhado num silêncio absoluto. Recomeçámos mas, pouco depois, ouvimos mais passos. Os soalhos eram de madeira e o som era claríssimo: Tum, tum, tum, tum! O que é que se passa? Tínhamos a garantia que ninguém estaria no edifício. Seria uma alma do outro mundo? Era 1h da manhã. Como no piso de cima havia um laboratório resolvemos ir espreitar para ver o que se passava. Subimos, pé ante pé. Batemos à porta mas escondemo-nos logo, com medo do que pudesse sair dali. Do outro lado da porta estava um professor que ainda trabalhava àquela hora e não tinha sido avisado da nossa tarefa. Ficou tão assustado como nós. Pensava que eram ladrões. Por isso, não abriu a porta. E assim ficámos todos uns bons minutos, bastante aflitos, até percebermos o que se passava. O professor, cada vez que se levantava da secretária e se dirigia à bancada de trabalho fazia o tal barulho, o que proporcionou uma situação caricata».

 

[Na Biologia Celular] A grande preocupação era pôr as cadeiras a funcionar e ninguém regateava esforços para arranjar todo o material necessário. Como no caso de João Carvalheiro, que trocou o laboratório de Anatomia pelo de Biologia Celular. Deixou de descarnar cadáveres mas passou a andar embarcado, em arrastões, “à pesca” de amostras: «As células dos peixes capturados há três ou quatro dias já não servem para o estudo ao nível da microscopia eletrónica, porque já se encontram em decomposição. Por isso, embarquei com frequência nos arrastões, com o objetivo de pegar no peixe ainda a rabiar. Depois, com um bisturi, retirava aquilo que fosse necessário para estudar (guelras ou determinados tecidos que me pediam das sardinhas ou dos carapaus, por exemplo). Metia as amostras num frasco com um fixador e colocava-as numa mala térmica. Assim, as células ficavam em boas condições durante 8 dias».

 

[Na Microscopia Eletrónica] «Os computadores portáteis, na altura eram raríssimos» – diz João Carvalheiro, que se especializou em fotografia forense de microscopia eletrónica depois de passar do laboratório de Anatomia para o apoio técnico à Biologia Celular. «Mas já conseguia levar nessa altura um portátil da profª. Corália Vicente, juntamente com um projetor de vídeo, que custou 3 mil contos (cerca de 15 mil euros). Tratava-se de um topo de gama com resolução 480x360. Hoje, claro, é uma boa peça de museu».

 

[Com a AEICBAS] João Carvalheiro era o repórter fotográfico e de vídeo dos torneios. Numa das ocasiões, saiu do estádio universitário e dirigiu-se à cantina da reitoria (ainda no antigo edifício do CICAP), onde seria servido um almoço de encerramento. Já lá se encontrava o prof. Nuno Grande, acompanhado pela esposa. João Carvalheiro levava a filha, de 13 anos:

«Já passava das 14h e os autocarros com os alunos tardavam. Estava tudo cheio de fome, incluindo a minha filha. O prof. Nuno Grande apercebeu-se e disse: “Resolve-se já o problema!” Dirigiu-se de imediato à cozinha. Bateu à porta. Surgiu o cozinheiro, com um ar desconfiado. O prof. Nuno Grande disse-lhe: “Temos ali uma menina, que está cheia de fome, quase a cair para o lado, não se arranja qualquer coisa para ela comer enquanto se espera pelos alunos?” Veio logo um prato de sopa e um prato de bolinhos de bacalhau, com pão, para toda a gente. Foi uma delícia, até porque os alunos só chegaram perto das 15h…».

A Semana Internacional foi outro sucesso. «Dedicámos um dia a cada continente», refere Carlos Magalhães. «Foi fantástico. Conseguimos a colaboração de quase todas as embaixadas em Portugal, por muito pequeno que fosse o contributo. Todas as noites, com a ajuda dos funcionários, montávamos a exposição do dia seguinte. Praticamente não íamos a casa. Recordo-me perfeitamente dos srs. Duarte Monteiro e João Carvalheiro, que nos ajudaram imenso».

«Tínhamos liberdade e autonomia para trabalhar», diz Duarte Monteiro, um homem que tem 38 anos de ICBAS e que aplica a vocação artística para o desenho, pintura e escultura na preparação das peças do laboratório anatómico.

João Carvalheira conta que “aquela” semana teve um segredo: «Tinha visto em Espanha um grupo de indivíduos (que normalmente faz cenários de teatros e óperas), a decorar um pub à base de… esferovite! Reparei que utilizavam vários tipos de escovas (desde as mais duras, de arame, às mais macias, para limpeza de camurça). Fiquei surpreendido com o resultado, que é extraordinário e pensei logo que podia adotar a técnica, no ICBAS, à Semana Internacional, com a ajuda do Duarte Monteiro, que é – digamos - o artista, a quem competia fazer os desenhos. Durante a noite construíamos o cenário do dia seguinte, outro continente, montando todo o artesanato e material correspondente».

E prossegue:

«Tínhamos pedido o material com dois meses de antecedência mas só o recebemos no sábado anterior à abertura, marcada para uma segunda-feira. Trabalhei nesse fim de semana de forma ininterrupta, sem ir à cama. Depois, na segunda-feira á noite foi preciso montar o de terça, depois o de quarta e, assim, sucessivamente. Eu e o Duarte Monteiro dormíamos, por vezes, uma hora em cima de uma placa de esferovite. Ia a casa apenas para tomar banho. A minha mulher dizia: “Leva a cama contigo!”

 

 [Na Associação de Funcionários] Nuno Grande já tinha tomado a iniciativa de fundar uma Associação de Funcionários em 1978, que chegou a contar com um posto médico, extensivo a familiares, situado no edifício antigo do instituto. «Nessa altura já havia cento e poucos funcionários, docentes incluídos», diz João Carvalheiro, um dos grandes dinamizadores do grupo. «Começámos, desde logo, por organizar passeios a locais típicos deste tipo de convívios, como a Serra da Estrela ou o Gerês, sempre munidos de um generoso farnel».

 

 [No rescaldo do incêndio de 1992] Na manhã seguinte, quase 300 pessoas, entre professores e funcionários, de bata branca e galochas, arregaçaram as mangas e, de vassouras na mão, tentavam limpar o edifício, enquanto removiam equipamentos e material documental das zonas inundadas. «Carreguei com mesas e secretárias às costas», recorda o antigo funcionário, João Carvalheiro.

 

Excertos do livro “A HISTÓRIA DOS HOMENS QUE INVENTARAM UM SONHO” (2017) de Rui Martins

Fotografia: Paulo Vaz-Pires

 
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