“A pessoa isolada é uma abstração teórica que não tem sentido, porque cada um é uma consequência dos que se cruzam no trajeto de vida e compartilham o circunstancialismo existencial”. Em certo sentido, a frase do professor Nuno Grande, proferida numa entrevista de 2007 ao Jornal de Notícias, sintetiza exemplarmente um modo global de compreender o mundo, o qual constitui a matriz ética e científica do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto.
No ano em que se assinala o meio século de existência do ICBAS, aquela reflexão de um dos seus fundadores, associada à frase de Abel Salazar segundo a qual “quem só sabe de Medicina nem de Medicina sabe”, adquire ainda mais atualidade e acutilância, devendo continuar a inspirar-nos e a apontar-nos o caminho a seguir. Com efeito, o rumo conferido ao ICBAS nestes 50 anos permitiu-lhe transformar-se numa verdadeira escola multidisciplinar especializada nas ciências da vida, reunindo, portanto, condições únicas para adotar e defender uma nova mundividência para a saúde e para o bem-estar do planeta.
Pude, durante os 14 anos em que tive o privilégio de dirigir o ICBAS, pugnar também por esta visão, contribuindo para que a instituição se afirmasse pela defesa desta ideia, bem como pela enorme qualidade da formação que proporciona em cursos como o de Medicina, mas também nas áreas da Bioquímica e da Bioengenharia, e pela excelência investigação que produz. Nenhuma outra escola médica do país reúne hoje, por isso, condições para abordar a problemática da saúde de uma forma global, interdependente, integrada e holística, conferindo substância ao conceito One Health, que o ICBAS adotou de forma pioneira.
Segundo a definição da Organização Mundial de Saúde, o conceito One Health constitui uma abordagem integrada da nossa relação com o mundo, destinada a equilibrar e otimizar o bem-estar dos seres humanos, dos animais e do meio-ambiente, a fim de prevenir, prever, detetar e responder às ameaças presentes e futuras à saúde global. Colocando em diálogo aspetos tão diversos da atividade humana como a aquacultura, o bem-estar animal, a nutrição, a engenharia, a medicina, a biologia, a ética ou a agricultura, esta é, hoje, a única forma eficaz de evitar o aparecimento e a propagação de novas doenças, conforme ficou demonstrado pela pandemia da Covid-19.
Ao assumir o conceito One Health como fio condutor da sua ação estratégica, o ICBAS deverá focar-se em promover o aprofundamento da colaboração da Veterinária com o setor agroindustrial ou influenciar o desenvolvimento do potencial económico do mar, empenhando-se na defesa da biodiversidade, da sustentabilidade e de uma relação mais ética com o planeta que é a nossa casa. Contribuirá indiscutivelmente, desta forma, para o futuro da comunidade a que devemos servir, assim cumprindo aquele que deve ser o desígnio fundamental de uma instituição de ensino superior.
O ICBAS pode e deve, pois, assumir um papel essencial na afirmação desta mundividência como única forma sustentável e sustentada de lidar com a saúde humana, o bem-estar global e a vida na Terra. Se, num tempo de egoísmos e de aparente avanço de diferentes formas de obscurantismo, esta parece ser uma missão particularmente desafiante e difícil, os obstáculos não nos devem desmotivar nem fazer vacilar. Conforme também explicou o professor Nuno Grande naquela entrevista, “a força do querer não tem limites conhecidos”.
Ousemos acreditar. Como escreveu Fernando Pessoa, a ousadia só parece extravagante àqueles que a nada se atrevem.
António de Sousa Pereira
Reitor da Universidade do Porto
ICBAS, 04.JAN.2025
[Texto anexo à newsletter de janeiro 2025]