Resumo (PT):
Esta tese propõe uma análise crítica e aprofundada da voz e autonomia dos/as
alunos/as do ensino secundário no contexto da escola pública portuguesa,
considerando os discursos político-educativos em torno da gestão democrática, dos
processos de autonomia das escolas e das possibilidades de participação discente na
discussão e decisão nos órgãos de governo da escola. Assente num quadro teórico
plural – que mobiliza contributos da administração educacional, das políticas
educativas, das organizações e dos estudos sobre jovens e autonomias – discute-se a
escola democrática como espaço simultaneamente educativo, social e político, onde se
disputam autonomias e autoridades, poderes e desigualdades, possibilidades
emancipatórias e lógicas meritocráticas.
Metodologicamente, desenvolveu-se um estudo de caso, com abordagem
mista – quantitativa e qualitativa –, envolvendo um inquérito por questionário
nacional, respondido por 3494 alunos/as do ensino secundário, sobre a participação
discente, autonomia e voz; e um estudo aprofundado em quatro escolas, com
observação participante, grupos de discussão focalizada com alunos/as e entrevistas
semiestruturadas com diretores/as e professores/as. Esta combinação metodológica
permitiu compreender a autonomia e voz dos/as alunos/as, tanto numa perspetiva
nacional como em contextos concretos de ação, de participação e iniciativa discente.
A análise revelou distintas tipologias/perfis de participação discente, refletindo
diferentes perceções e formas de envolvimento, desde a participação crítica e ativa até
à ausência quase total de ação. Embora os/as alunos/as manifestem interesse,
disponibilidade e consciência crítica para participar na vida das suas escolas, muitos/as
desconhecem as estruturas formais de participação e reconhecem limites no acesso
aos órgãos de decisão. Quando participam, esses espaços formais revelam-se, muitas
vezes, pouco acessíveis ou instrumentalizados, estando tutelados e/ou condicionados
pelos/as diretores/as e professores/as, com poucas margens de autonomia dos/as
alunos/as. Em simultâneo, emergem práticas informais e criativas que expressam a
capacidade dos/as jovens para criar os seus próprios espaços de organização conjunta,
de discussão, ação e reflexão.
A leitura integrada das “vozes contadas” e “vozes narradas” evidencia que a
escola é, ao mesmo tempo, um espaço de oportunidades, restrições e disputas, onde
coexistem práticas formais e informais de exercício democrático. Compreende-se uma
autonomia conquistada pelos/as alunos/as, decorrente da sua iniciativa e participação
ativa nas dinâmicas escolares, e uma autonomia concedida aos/às alunos/as,
aparentemente dependente dos compromissos democráticos institucionalizados nas
escolas. Neste cenário, defende-se uma certa urgência de, em democracia, repensar a
administração das escolas, reconhecendo aos/às alunos/as a possibilidade de viver a
escola em exercício democrático, como sujeitos políticos com direito à iniciativa,
discussão e participação na decisão. Ao valorizar a sua autonomia e voz, esta
investigação decerto contribui para (re)pensar a escola pública como laboratório de
democracia e experiência humana, onde se aprende a liberdade, a viver em comum, a
tomar decisões e a solidariamente procurar transformar a realidade.
Idioma:
Português
Nº de páginas:
377