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Crise afetou crescimento do QI das crianças portuguesas

Desenvolvimento cognitivo pode ser atingido por alterações das «dinâmicas familiares», alertam investigadores

Foto crianças

Uma equipa de investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde chama a atenção para os efeitos das crises no QI (quociente de inteligência) das crianças.

De acordo com um estudo deste grupo, publicado na revista científica Intelligence, a tendência de crescimento do QI (quociente de inteligência) das crianças portuguesas em idade escolar foi afetada negativamente pela crise económica que se viveu entre 2008 e 2016. Embora o QI tenha aumentado ao longo de 25 anos, os ganhos foram menores depois de 2008.

“Com a atual situação de pandemia pela COVID-19, é possível que venha a assistir-se a nova redução no crescimento do QI, em média, nas crianças”, admite Irene Carvalho, investigadora da FMUP e do CINTESIS e uma das autoras deste estudo.

Para já, os resultados do estudo, anteriores à pandemia, mostram a presença do efeito de Flynn, mas apenas para o período entre 1991 e 2008, com um crescimento do QI de 2,6 pontos por década”. O efeito de Flynn define-se como um fenómeno relativo ao aumento observado no QI, em média, ao longo de décadas, em vários países do mundo, por razões que incluem fatores biológicos, históricos e sociais, como a educação, os cuidados médicos e a alimentação.

Este maior crescimento do QI coincidiu com um período de expansão económica em Portugal, sendo que as crianças com níveis mais baixos de capacidade intelectual foram as que tiveram mais ganhos no QI. No entanto, entre 2008 e 2016, esses ganhos foram mais reduzidos, em linha com estudos idênticos realizados noutros países, situando-se em apenas 1,7 pontos, por década, ao longo daquele período.

Em Portugal, os autores entendem que o desenvolvimento cognitivo das crianças terá sido afetado pela recessão económica, possivelmente devido à alteração da “atmosfera familiar” e das “dinâmicas familiares”.

“Os resultados vão ao encontro da hipótese de que a depressão económica afetou negativamente o desenvolvimento cognitivo das crianças através da desmoralização dos pais, com consequente diminuição da qualidade do ambiente familiar proporcionado para esse desenvolvimento”, dizem.

Para os investigadores, “estes resultados são indicativos da importância da formação escolar dos pais no desenvolvimento cognitivo das crianças”, sugerindo que níveis mais elevados de formação dos pais podem ter um efeito positivo no QI dos filhos. Ressalvam, contudo, que “em períodos de recessão, mais formação pode não ser suficiente para contrabalançar esse efeito negativo”.

Segundo Irene Carvalho, as restrições impostas pela pandemia podem vir a ter novamente um efeito negativo sobre o crescimento do QI das crianças, fenómeno que requer especial atenção.

“O habitual processo educativo ficou comprometido não só porque há menos aulas e as aulas são à distância, o que também compromete o processo de socialização entre pares, mas ainda pelas eventuais alterações nas dinâmicas e ambiente familiares”, explica.

Ainda assim, acredita que “será possível reverter a curva de forma positiva, quando as circunstâncias e funcionamentos do dia a dia forem retomados, no período pós-pandemia”.

Este estudo foi realizado em coautoria por uma equipa de investigadores da FMUP, CINTESIS, REQUIMTE/LAQV, Universidade Nova de Lisboa, CESPU e Centro Hospitalar Universitário de São João, com coordenação de Conceição Calhau, do CINTESIS/NOVA Medical School.


Foto: Alexandr Podvalny
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