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Maria Cândida Oliveira

62 anos, 2 filhos

Ano de entrada na FEP: 1965

Actualmente, consultora em organização e gestão de Empresas, Mesária da SCMP e Presidente do Conselho Fiscal da Sogrape


Quem é a Maria Cândida?


Sou uma pessoal normal, como tantas outras. (Tenho muita dificuldade em falar em mim…). Mas, acho-me completamente normal. Sou uma pessoa que gosta muito do que faz, que luta muito por aquilo em que acredita… até se convencer que não é possível… Quando acredito numa Causa, raramente deixo de combater. Fui sempre assim na vida, talvez por força da educação que tive.

Em que ano é que entrou na Faculdade de Economia?


Na Faculdade de Economia, em 65. Formei-me em Outubro de 70. Vim de África, Moçambique, com o objectivo de pura e simplesmente me formar em Economia e regressar. Mas entretanto acabei por ficar cá, casei com um colega e os meus planos foram para a estratosfera; acabei por não voltar. Com bastante pena! Mas, poucos anos depois, a família veio toda, fruto da história que nós todos conhecemos. Quando saí da Faculdade, fiz uma breve passagem pelo ensino, porque, na época, era o que nos estava reservado. Era extremamente difícil, nomeadamente para nós mulheres, encontrar um trabalho na área da gestão, assim à maioria restava o refúgio do ensino enquanto não surgia aquilo que realmente nós queríamos. Eu não queria de facto dedicar a minha vida a dar aulas; queria ir para a área da gestão, e, digamos que mais ou menos depois, isso aconteceu.

Começou a trabalhar em que área?


Fui para a Sogrape. Considero que tive muita sorte, no aspecto em que nem sempre se começa bem, se entra na empresa certa e se está com as pessoas certas. Nesse aspecto, considero-me privilegiada, porque tive a oportunidade de começar a minha vida profissional numa empresa com uma cultura muito especial, tanto a nível humano, como a nível de gestão, onde aprendi muito do pouco que sei e onde, de facto, me senti sempre muito bem. Aliás, eu sempre me senti ligada a essa empresa porque mais tarde, quando vou para Barbosa & Almeida, vou a convite da administração da Sogrape, então accionista maioritária de BA. A maior parte da minha vida de trabalho esteve sempre ligada à mesma GENTE. Curiosamente agora, volvidos estes anos todos, estou de novo com eles, porque sou Presidente do Conselho Fiscal da Sogrape. Acho que o meu começo foi privilegiado, porque alguns colegas meus entraram em empresas onde não havia de facto uma conduta baseada numa boa cultura de empresa, uma educação empresarial e uma postura de respeito pelas hierarquias e pelas funções, fosse ela qual fosse, desde a mais baixinha até à mais alta, porque afinal no fundo todos numa empresa contribuem para o seu sucesso. E eu considero que nesse aspecto tive muita sorte e não aconteceu porque tivesse pedido ou intercedido. Evidentemente que quando saí da faculdade fartei-me de me mexer para arranjar lugar fosse onde fosse, mas a oportunidade ocorreu, quando eu já quase estava na convicção de que não me restava outra alternativa, que ser professora. Como lhe disse, nunca deixo de lutar por aquilo em que acredito, mas já estava a pensar que não havia alternativa. Entretanto, surge um anúncio no jornal a que eu respondi e foi tão somente isso.

Como é que era a FEP ali na Praça dos Leões?


Do ponto de vista de instalações, má; estávamos instalados num sótão. Eu não sei como é que o mundo universitário hoje a nível de utentes no que se refere a solidariedade. Fiz agora uma breve passagem pelo ensino, na Universidade Fernando Pessoa, em que estive a dar um Mestrado para um grupo de 14 alunos, mas foi uma experiência vista do outro lado. Estive a dar um Mestrado sobre Estratégia Empresarial. Fiquei muito bem impressionada com o nível e postura dos jovens licenciados, o que me leva a surpreender com certas notícias que surgem por aí, generalizando certos comportamentos. E, falo por mim. Tive uma experiência muito engraçada e gratificante. Na FEP, naquela época, nós todos trabalhávamos muito, porque não tínhamos outra hipótese. Tínhamos mesmo que pedalar muito, tínhamos que nos esforçar muito, porque o nível de exigência era brutal, a todos os níveis. Havia professores eventualmente mais contemplativos, menos exigentes, mas a grande maioria tinha um grau de exigência enorme, uma coisa absolutamente incrível, que não nos dava muita oportunidade que não fosse para levar aquilo, muito, muito a sério. Isso dava-nos uma enorme união, porque para além de termos os livros, as aulas, de tudo, tínhamos também que nos ajudar, em termos de apontamentos e esclarecimentos. As pessoas não tinham acesso à informação como hoje, não havia tantas facilidades. As tecnologias de informação não existiam, e portanto tinha que haver uma grande interajuda. Dos que entramos em 65, em relação ao número inicial, apenas acabou junto um pequeno grupo. Pede-me exemplos, entre eles o Daniel Bessa, o Falcão Carneiro, o Godinho de Almeida,… Depois havia os que nós íamos apanhando. Portanto, acabamos por formar um conjunto que não era o núcleo inicial. Desse, sobraram poucos, porque deixavam cadeiras para trás, porque iam chumbando … Mas era um grupo muito engraçado e eu acho que foi uma fornada muito boa qua saiu naqueles anos, tanto no meu ano como nos anos subsequente, que era gente com muita qualidade, que trabalhou muito, que sabia muito. Eventualmente não teria uma visão prática das coisas como hoje os jovens têm porque o ensino era muito mais virado para o nível teórico. O que nós tínhamos era uma bagagem muito consistente, muito sólida.

De que é que gostou mais na FEP naquela altura?


De uma maneira geral, de tudo.
Mesmo que naquela altura não tenha gostado e agora reconheça que foi algo bom…
Mas é verdade, tem razão numa coisa. Muitas vezes quando estamos a viver as coisas, achamos que é um exagero e que o nível de exigência é muito grande, embirramos com isto e com aquilo, temos uns professores de quem gostamos mais, outros, que são as “feras”… Mas hoje, pensando bem e, olhando para trás, eu acho que foi profundamente útil tudo isso. De facto, a idade e a experiência fazem com que nós olhemos para as coisas de outra maneira, Por exemplo, nós quando somos adolescentes, os nossos pais vão dizendo coisas e nós achamos que é música celestial e, mais tarde, quando somos pais e quando vivemos as situações, chegamos à conclusão de que eles, afinal, tinham razão. Portanto, a sensação que eu tenho, é que estive, numa época, na Universidade, tanto a nível de colegas, como a nível de corpo docente com gente boa, com gente que nos deu, pelo menos a mim, armas para poder na prática, na vida, sentir a segurança para poder enfrentar os desafios que profissionalmente se iam deparando.

Alguma área em particular foi assim útil?


Bem, apesar de eu ser licenciada em economia, eu sempre estive ligada à gestão propriamente dita, Portanto, tudo o que era ligado à gestão, à empresa, mas ao nível da condução da empresa, que é o que eu mais gosto de fazer. Hoje não o faço porque também já trabalhei muito e faço mais consultadoria, mas tenho muitas saudades. O que eu também acho, é que tenho que pôr um bocadinho de travão à minha ânsia, porque eu, trabalhei muito. Mas, de facto, não há nada tão gratificante, pelo menos para mim, que gosto, como estar numa empresa, motivar as pessoas, porque sem as pessoas as empresas não são nada. Fazer com que todos assumam o objectivo da empresa como o seu, e sentir a máquina a trabalhar, i.e. tudo e todos a puxar para o mesmo lado, e os resultados a acontecerem.

Falamos de coisas boas até agora. E coisas de que gostou menos? Alguma coisa que se fosse agora, devia ser diferente?


Não me recordo, porque eu não sou uma pessoa de más memórias. Mas isto é com a maior das sinceridades. Felizmente, eu devo ter um filtro psicológico. Eu não tenho nenhum baú onde guardo más recordações; expurgo isso tudo. É uma questão de temperamento, não é uma qualidade, é uma questão de postura, de maneira de ser, se calhar até genético, ou fisiológico. Não sou capaz. Se quiser fazer um esforço muito grande, imagine que alguém me decepcionou e me feriu… não me esqueço mas não perturba a minha vivência. Eu não sou uma pessoa que olhe para trás e sinta qualquer espécie de rancor.

Acha que foi tudo perfeito?


Perfeito, não. As coisas evoluem naturalmente consoante a sociedade evolui. Naquela época, para aquela sociedade, pra aquilo que era, era assim, e ponto final. Entretanto, as coisas evoluíram, se quer que lhe diga, se calhar algumas não evoluíram tão bem assim. Houve uma abertura muito grande, houve coisas que desapareceram, que eu pessoalmente acho que se calhar foi erro. Tenho dúvidas que os jovens profissionais hoje saídos da maioria das Universidades contem com certo tipo de defesas e bagagem que tinham na época. Podem dizer que era uma forma um bocadinho clássica e excessiva da passar conhecimentos, mas o certo é que, as pessoas ficavam com ele. Tinham-no mesmo! Hoje se calhar existe um… (não queria chamar-lhe) certo facilitismo… Os profissionais, salvo honrosas excepções, fogem a assumir responsabilidades, não assumem tanto as coisas e depois é tudo muito mais superficial e mais aligeirado. Perante as dificuldades que surgem, há muito receio de enfrentar profissionalmente. Frequentemente optam por soluções de compromisso, não decidem, e a “culpa”, morre solteira. Não sabem ou não querem resolver, porque lhes falta o background que dá a coragem na hora certa.

Baseado em toda a sua rica experiência profissional, que conselhos daria aos nossos estudantes que estão a sair agora, quer da área de Gestão, quer de Economia?


Acho que fundamentalmente o grande conselho que poderei dar, se é que sou alguém para dar conselhos, é que procurem ter uma postura e saber intelectual e convencerem-se de que, na medida em que se quer ter cargos de chefia, e, quem sai de uma Universidade não vai logo ter um alto cargo, deve conquistá-los, natural e espontaneamente e não combater para os ter, porque as coisas só surgem e só têm consistência quando de facto são ganhas através dos resultados e das prestações que se vão fazendo; a pressa, muitas vezes, é inimiga da qualidade. Digo frequentemente aos filhos, aos jovens que acabam de entrar no mercado de trabalho, que o que conta é a nossa credibilidade, e essa não se consegue com favores políticos, sociais, seja lá o que for. É aquela que nós conquistamos com resultados que, naturalmente vão saindo das nossas performances e, portanto, é step by step que se chega lá. As coisas fluem naturalmente e são consequência lógica, com muita seriedade na forma como se trabalha, tanto em relação aos outros, como sobretudo em relação a nós próprios porque nós não podemos ser sérios para os outros se não formos sérios connosco. E este é o grande conselho. E eu acho que há muita boa gente, Agora, o que esta gente hoje enfrenta, é uma crise de esperança e o problema gravíssimo de encontrar no mercado de trabalho oportunidades que, muitas vezes, estão dadas a quem não merece, porque as razões de escolha nada tiveram a ver coma competência e isso é muito mau para uma sociedade. Há gente muito boa e que está eventualmente no sítio errado porque não tem amigos, não tem favores políticos, não tem quem lhe meta cunhas. Situação tão grotesca, que todos combatemos, mas que está pior do que nunca. E eu vejo gente muito boa, a fazer coisas que se calhar não é ali o sítio certo, e vejo outras pessoas que não valem nada em cargo importantes. Depois o resultado está à vista. Diz-me que foi sempre assim… e eu digo-lhe que actualmente é mais evidente. Claro que hoje a informação é mais aberta, mas acessível, houve uma evolução muito grande na comunicação. Mas todos nós sabemos e constatamos isso. E os resultados são a proba disso.

Entrevista realizada por Pedro Quelhas Brito

“…a sensação que eu tenho, é que estive, numa época, na Universidade, tanto a nível de colegas, como a nível de corpo docente com gente boa, com gente que nos deu, pelo menos a mim, armas para poder na prática, na vida, sentir a segurança para poder enfrentar os desafios que profissionalmente se iam deparando.”
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