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Daniel Bessa

Licenciado na Faculdade de Economia da Universidade do Porto em 1970


Como é que era a FEP no seu tempo?


Eu entrei em 65, fui aluno do 13° curso, ou 14°. Eu penso que muitas coisas nessa época eram mais sacralizadas do que são hoje. Ou então fomos nós que, com a idade, mudámos. Uma coisa que me admira e que me espanta em muitos portugueses, é o acesso que têm a grandes instituições, com elevadas responsabilidades. Portanto, eu acho que hoje muita gente, no decurso da vida, criou essa ideia de acesso e de proximidade. Não era assim; para um miúdo com 17 anos que entra na Universidade, a Universidade é vista como um mundo complexo, era muito pouca gente que acedia. A FEP era uma coisa relativamente distante, um pouco mítica, no sentido de que também criava nessa altura uma expectativa de algum conforto para o resto da vida, a ideia de um emprego, a ideia de um emprego bem pago. Depois tinha a ver com as pessoas que por lá andavam. A FEP não tinha um corpo docente muito jovem. Economia nasceu relativamente tarde, não havia ainda muitos diplomados e alguns deles eram pessoas que foram para a universidade já numa fase tardia da vida. E, portanto, havia por lá professores que eram homens feitos, de carreiras profissionais já de relativa referência. Portanto, não sei se era da idade, se era disso tudo junto, a FEP, e a Universidade em geral, aparecia como um passo muito importante e a entrada num mundo completamente diferente.

O Daniel foi “puxado” para a Economia?


Eu devia ter ido para Direito. A vocação era Direito. Isso era uma coisa que se decidia no final do antigo 5° ano do liceu, hoje o 9° ano. Só que para Direito era preciso ir para Coimbra, nem sei se havia em Lisboa nessa altura, talvez houvesse… Mas a alternativa era ir para Coimbra. E para uma família com limitações muito sérias, isso estava completamente fora de questão. A FEP apareceu como uma espécie de second best. Em áreas mais científicas, a Física e a Química, eram áreas onde eu manifestamente não me revia. Áreas como as línguas, por exemplo, também fazia muito mal porque tenho péssimo ouvido, e depois vim a perceber que provavelmente o problema era esse. A FEP era de alguma forma intermédia, a velha alínea “f”, que não era nem de letras nem de ciências. No nosso tempo, um tipo chegava ao 5° ano de liceu e tinha que escolher, portanto escolhia basicamente a via das ciências ou das humanidades. E a alínea “f” era uma alínea intermédia. Economia era o curso de Salazar, que tinha muito pouca história. O Porto tinha uma tradição de formação em Ciências Comerciais. Tinha havido uma Escola de Comércio do Porto que tinha sido encerrada, não sei se pela 1a República, se já pelo Salazarismo. Mas eu penso que foi na 1a República que essa escola foi encerrada… E a FEP é criada então em 53, como uma tentativa de restaurar no Porto a Economia. Mas de Economia não tinha nada, aquilo era basicamente uma escola de gestão na vertente mais comercial, financeira e contabilística. As partes fortes eram a contabilidade geral, a contabilidade analítica. Havia um foco muito grande no Direito, mais próximo dos negócios… Portanto, Economia como a entendemos hoje, a simples distinção entre micro e macro quase não entrava ali. Talvez já fosse um pouco mais sofisticada no trabalho sobre as Ciências Económicas, mas a FEP era basicamente uma escola, não vou dizer de negócios, mas de gestão na vertente mais contabilística e financeira e, aquilo que alguém que entrava na FEP esperava fazer era uma carreira desse tipo, na área das contas. Eu fui sempre um aluno muito ponderado, com um sentido de dever quase obsessivo. A minha família era bastante modesta, o meu pai tinha feito um curso na escola comercial. À saída da escola primária, a grande escolha era entre ir para o ensino técnico ou ensino liceal. O pai tinha uma opção assumida pela Escola Comercial mas prevaleceu a ideia da mãe e da família da mãe, dos tios e das tias. Eu tinha sido um estudante bastante aceitável na escola primária, e a família da mãe fez prevalecer a ideia de que o menino devia seguir a via liceal porque lhe permitia chegar à Universidade e ser na vida alguém um pouco mais sofisticado. Lá fui, mas com um contrato: no primeiro ano que reprovasse, ingressaria no ensino técnico. Portanto, eu desde o primeiro dia fui muito confrontado com esse problema, não podia reprovar, não podia deixar mal quem tinha apostado em mim. Depois havia o problema económico. Quando andava no 3° ano do liceu, arranjei um miúdo que andava no 1° ano, tinha um ano a menos que eu, e eu fui posto a dar-lhe explicações nas matérias todas. Ele ia lá para casa e eu ganhava dinheiro com isso. Foi um trabalho que a minha mãe me arranjou e ao fim de um ano esse dinheiro todo deu para comprar um fato. Isto para dizer que era uma pressão muito grande, um enorme sentido do dever e da responsabilidade.

Mas o Daniel não se divertia nessa altura? Não namorava?


Sim, pelo menos no Verão. A namorada, digamos, mais sólida foi encontrada lá na FEP. Aliás bem cedo, no final do 1° ano já eu ia construindo uma relação mais sólida. O Verão era um período muito longo, dá-me a impressão que hoje é menos longo, mesmo para os miúdos que estudam. Mas aquelas férias de Verão, aqueles três meses… Eu era um bom aluno, portanto normalmente não tinha exames em Outubro ou em Setembro. Eu não sou do tempo de comer meia sardinha, talvez a avó fosse, mas não tem comparação possível.

Mas concretamente o que é que gostou mais na FEP, o que é que o marcou?


Eu construí uma relação muito especial com uma pessoa que conheci lá logo no primeiro ano, o Professor Alberto Pedroso era um mito. Era um homem já formado em Físico-Químicas na Faculdade de Ciências. Depois, quando a FEP foi criada, ele já homem adulto, ingressa na FEP como aluno, e lá se licenciou. E fazia uma diferença incrível, porque era uma pessoa com um espírito muito analítico, com uma formação quantitativa bastante sofisticada, muito rigoroso. Por exemplo, essa pessoa marcou-nos muitíssimo a todos. Depois do 25 de Abril a escola mudou, ele não aceitou algumas mudanças e pôs-se numa situação de incumprimento que nos obrigou a saneá-lo, como na altura se dizia, não sei se o termo é o mais apropriado. E acabou ali uma relação, que era talvez a relação que eu mais prezava. Nunca mais falei com ele, porque não me atrevi e ele também não teve a condescendência de dizer alguma coisa.

E sobre o lazer e divertimentos?


Tenho uma vaga ideia, de qualquer coisa na área do cinema. Sou um admirador incondicional de alguns cineastas. Bergman foi talvez aquele que me marcou mais. Depois mais tarde, já é outra geração, o Fassbinder. Fiquei seduzido pela sua lucidez. Ele matou-se, e eu acho que era construir sobre isso a ideia de que é o fim único que restava a alguém que fosse tão lúcido. Era um modo de entender o mundo. Mas isso veio numa fase posterior. Portanto, havia um pequeno círculo na área do cinema, havia um pequeno círculo na área do teatro. Isto para dizer que o Porto era uma cidade de trabalho, e mesmo de algum lazer. Eu, aos Sábados, ia ao Universidade e ao Piolho, este sendo um café um pouco mais conservador ia-se para conversar. Ao Universidade ia-se para conversar e para trabalhar. E eu que tinha que trabalhar, era mais frequentador do Universidade (café) do que do Piolho. Eu lembro-me de aparecerem as primeiras televisões, vivi em Viana do Castelo sem luz eléctrica, em casa da avó.

E como é que a FEP foi evoluindo?


A FEP foi feita no 25 de Abril, essa é a ruptura total. É uma ruptura basicamente política. No 25 de Abril há meia dúzia de pessoas que tomam conta da situação, há o saneamento dos Professores. Eu votei contra o saneamento do Professor Seabra, que era o director, achava-o muito decente. A ideia do decente é muito relativa, era uma pessoa com convicções políticas, que pôs essas convicções políticas à frente da Faculdade em vários momentos. Mas apesar de tudo era um tipo cumpridor e eu achei que não havia muita razão para o mandar embora. Mas votei por exemplo a favor do saneamento do Almeida Garrett, que era do regime e era um Professor, e como Professor distinguia-se por não ir lá, e achei portanto muito razoável mandá-lo embora. Na sequência disso, houve a saída de uma série de pessoas, como o Professor Pedroso, o Professor Baganha, que se puseram na posição de não concordar com nada do que se estava a passar. (…) Eu estou incluído naturalmente, está incluído o Carlos Costa, que foi uma figura decisiva, a Fátima Brandão, o Vasco Airão e alguns tipos mais novos que estavam a chegar – Alberto Castro, Fernando Teixeira dos Santos... (…) Numa postura muito radical, muito virada à esquerda. Mas eu acho muita piada, porque essa malta, eu acho que no essencial, teve ali… vamos lá ver, eu fui Presidente do Conselho Directivo da FEP devia ter 26 ou 27 anos. (…) começou a dizer que a vida não era só política e administração universitária; tínhamos que estudar, e fazer os doutoramentos. Portanto, o José Madureira Pinto, que na altura era um conservador… eu deixei de ser Presidente do Conselho Directivo da FEP em 79, tinha portanto 31 anos. Foi tudo muito depressa, porque as pessoas são chamadas muito cedo a assumir enormes responsabilidades, e se reparar, algumas dessas pessoas acabaram por ter uma projecção na sociedade portuguesa que se calhar gente mais bem comportada e com processos mais normais acabou por não ser tão posta à prova. Agora outros tipos, que foram moldados ali, como o Freire, foi gente que andou lá e fez as asneiras todas, mas ganhou ali uma endurance, para usar a expressão francesa. Depois o passo seguinte é a normalização: uns vão para os EUA fazer os doutoramentos… O primeiro grupo que vai para os Estados Unidos, que tem a ver com a vinda do Professor Vale e Vasconcelos, que é um senhor português que toda a vida tinha vivido fora, em Moçambique, Angola, África do Sul, EUA, e veio para o Portugal democrático. Foi uma pessoa decisiva, porque ele vinha com contactos e começou a oferecer a possibilidade de alguma malta se doutorar. Ele entrou como Professor Catedrático para FEP nos finais dos anos 70. Os quatro primeiros que vão para os EUA são o Alberto Castro, o José Costa e o Abel. Ele não queria que fossem todos, mas depois houve uns arranjos internos, enfim as questões políticas da Faculdade em que para irem uns tinham que ir outros… E depois o José Madureira Pinto que também já estava a trabalhar no doutoramento. O Pimenta e eu também fomos para Lisboa, inscrevemo-nos como alunos de doutoramento e doutorámo-nos lá. Isso inicia a fase de normalização da Faculdade. E daí para cá aquilo que eu vejo com mais desgosto é a incapacidade que a FEP revelou de conviver com a diferença. Acabou por criar uma cultura de sentido único e acabou por ir perdendo – e eu vejo com pena isso - tipos que podem ser menos disciplinados, e podem valer menos desses pontos de vista, mas tinham alguma coisa a dar à Faculdade. Acho que foi pena que não se tivesse conseguido integrar. Quando foi criado o primeiro Conselho Científico na FEP, a FEP foi fechada, Mário Sottomayor Cardia fechou a FEP e depois entregou poder ao Professor Fernando Durão, que nem estava lá. Foi chamado o Professor Baptista Machado, o Professor Jorge Faria e o Professor Armando Castro, que nem sei se era Doutorado. À deriva mais revolucionária, o Conselho Científico era composto por estas pessoas. Isto nos finais dos anos 70, ainda o Madureira Pinto não se tinha doutorado, portanto estávamos completamente no princípio.

Como é que o Daniel gostaria que as pessoas se lembrassem de si?


Eu acho que fui um docente da FEP. Não sei se pode chamar um Professor, mas eu vivi o ensino. Acho que é a única coisa que eu na vida fiz bem. Construí uma série de competências na área pedagógica, talvez um pouco por força dessa vida de desde os 12 anos ser explicador. Acho que fui basicamente professor de muita gente, portanto acho que é assim que a maioria das pessoas que andaram na FEP durante estes 40 anos me vêem, embora agora esteja menos próximo.

O seu envolvimento na actual EGP – University of Porto Business School é relativamente recente.


Eu tive sempre o bicho da administração universitária. Eu já falei em cargos de direcção na própria Faculdade, depois estive ligado à criação da Escola de Tecnologia e Gestão do Politécnico de Viana, estive na Reitoria da Universidade do Porto. Portanto, essa foi sempre a outra metade da vida, digamos assim, que é a administração universitária. Aqueles que andaram pelo ISEE, que foi criado em 1988, o que podem recordar de mim é as aulas, e não correu mal. Depois fui chamado para a função de direcção da EGP, em 2000, quando o Rui Guimarães saiu. O Rui Guimarães era o segundo presidente da direcção aqui da Escola e eu fui o terceiro, desde 2000.

Qual é o seu legado na EGP?


Eu penso que a EGP cresceu bastante e atingiu um nível de notoriedade razoável. Bem, e agora fechámos um ciclo. A EGP foi uma coisa sempre mal recebida na FEP; foi vista basicamente como uma alternativa e o querer fazer coisas que se achava que a Faculdade não podia fazer, com um pendor mais executivo e menos académico e portanto a Faculdade conviveu sempre muito mal com isto. E do meu ponto de vista quase que põe termo a um ciclo. Eu acho que hoje se está numa fase diferente e eu sinto-me muito contente por ter estado aqui durante este período, por ter levado a EGP a um patamar de notoriedade um bocadinho mais alto. Mas do lado de cá estive eu e fico feliz por ter contribuído para enterrar este machado de guerra.

E o que falta fazer?


Eu acho que Portugal é um país minúsculo, onde as coisas nascem com o mínimo de ambição… É o caso das empresas que vendem no mercado interno e de repente passam a vender para fora e as coisas podem multiplicar por 10 ou por 20. Eu acho que a EGP-UPBS só depende de nós, portanto não há nada que nos limite, a não ser a nossa própria capacidade. Noutras escolas, noutros países, com situações de partida certamente não melhores do que as nossas, chegaram lá. Eu acho que o limite é o céu. Não há nada que não possamos fazer, só depende de nós.

Entrevistado pelo Professor Pedro Quelhas Brito
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