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Maio 2004

A FEP no meu tempo


Ricardo Fonseca Ricardo Fonseca (1944, Baião), uma filha e duas netas

Ano de entrada – 1963 Serviço Militar na Marinha (1969 a 1972)

Primeiro emprego: ITT (1972 a 1975)

Administrador da STCP: (1975 a 1990)

Vice-Presidente da Televisão de Macau: (1990-1992) Director-Geral da

STCP: (1992 a 1996) Presidente da APDL: desde 1996



Como é que era a Faculdade de Economia do Porto no seu tempo?

A Faculdade era um cantinho no sótão da Faculdade de Ciências. Éramos poucos e conhecíamos de nome todos os colegas. As famosas matemáticas e cálculo infinitesimal eram dados, na Faculdade de Letras, em conjunto com os alunos da Faculdade de Ciências e Engenharia. Para os exames era quase obrigatório levar gravata. Os jeans eram raros e as raparigas vestiam formalmente. Os colegas com que menos contactávamos eram os chamados alunos “voluntários”, maioritariamente trabalhadores estudantes que tinham que desenvolver um esforço superior aos restantes alunos para nos acompanhar no curso. A sua presença só era obrigatória nas aulas práticas. Formavam-se grupos que gravitavam muito em torno dos cafés, que a grande maioria frequentava. Para muitos, grande parte do estudo era feito nos cafés. Havia, entre outros, nas imediações da Faculdade, e, para além do “Piolho”, o Estrela e o Avis. Como morava na Rua Faria Guimarães acontecia haver um conjunto de colegas que morava nas imediações, o café que mais frequentava era o Satélite. Tratavam-se de autênticas salas de estudo. Em muitos cafés havia uma zonademarcada em que “era proibido estudar”. É que, com a despesa de um simples café, alguns estudantes ocupavam uma mesa o dia inteiro.

Passados estes anos o que é que ainda recorda com alguma satisfação desse tempos de faculdade?

Muito especialmente a camaradagem e os dias “meio loucos” das queimas das fitas. Havia então muita imaginação, nomeadamente nas piadas que desfilavam no cortejo. Alguns carros alegóricos tinham uma concepção muito criativa e sempre com uma nota de humor que era apreciada por quem assistia ao cortejo. Como exemplo do resultado da camaradagem que então se vivia posso citar o facto de o chamado “grupo do Satélite” ir anualmente passar as férias da Páscoa a uma casa da minha família em Baião. Embora levássemos alguns livros para estudar, que me lembre, nunca chegaram a sair das malas. O Sérgio Godinho, no primeiro ano, e o José Fernando (Madureira Pinto) faziam parte desse grupo.

E os momentos mais negativos?

Destaco o meu chumbo a matemáticas gerais. Nunca se sabia ao certo quando saíam as notas das escritas. Um dia recebi um telefonema de um colega a avisar-me que tinham saído as notas da escrita de matemáticas gerais e que iria à oral no dia seguinte. Do conjunto de alunos de economia e de engenharia creio que só eram 5 os que não tinham chumbado na escrita.
Ao fim de poucos minutos de exame oral, o professor (Fernandes de Sá) pediu-me para demonstrar o “Axioma de Arquimedes”. Convenci-me que tinha tido uma branca. Não me ocorria a forma da demonstração e, olhando para a assistência, viam também eles se interrogavam. Depois de sofrer uns minutos, que me pareceram uma eternidade, disse o examinador: “Oh! Senhor Aluno; não lhe ensinaram no 3º ano do liceu que os axiomas não têm demonstração? A sua oral terminou”!
Talvez com remorsos da maldade, em segunda época deu-me 16 valores.

Qual a identidade da FEP? A sua especificidade, os atributos que a distinguem. Afinal o que é a Faculdade de Economia do Porto?

A Faculdade de Economia foi a casa que me deu a bagagem de conhecimentos que me permitiu, com relativa facilidade, encetar a carreira profissional. Hoje reconheço melhor ter sido um alicerce sólido.

Depois destes anos de experiência profissional o que é que destaca na sua formação recebida? Algo que possa dizer sem isso não tinha chegado onde cheguei.

Não é fácil destacar. Mas presto agora justiça a cadeiras na altura por nós, ou pelo menos pela maioria, consideradas de muito pouca utilidade e que hoje reconheço serem muito importantes para a formação de alunos de um curso como o de economia. Refiro-me às matemáticas. Haveria algum exagero no seu desenvolvimento (para quê saber calcular um integral triplo?) mas foram um contributo importante para modelar o raciocínio.

Que conselhos é que daria para as novas gerações de economistas decorrentes da sua experiência profissional?

A realidade hoje é bem diferente daquela que vivi quando comecei a trabalhar. Na altura, quando procurávamos emprego, de uma maneira geral podíamo-nos dar ao luxo de seleccionar uma entre várias alternativas que se nos colocavam. Só procurei o meu primeiro emprego. Depois a carreira foi sendo feita na sequência de convites/desafios que me foram colocados. Há no entanto um princípio, válido na altura e que hoje ainda defendo: os primeiros passos profissionais devem associar-se a uma certa estabilidade que permita consolidar os conhecimentos adquiridos na faculdade. Uma grande ansiedade e rotação profissional elevada são altamente perniciosas. A experiência profissional que adquiri na ITT, particularmente na condição de responsável pela Auditoria Interna do grupo Oliva/Rabor, foi fundamental para consolidar a teoria que trazia da faculdade.

Entrevistado por Pedro Quelhas Brito


OFF the Record:


Em contraste com a postura reservada e discreta do actual Dr. Ricardo Fonseca, o jovem Ricardo sabia divertir-se bem. Para a sua primeira queima das fitas construiu uma máquina fotográfica, tipo “la-minute” dentro da qual introduziu uma bisnaga (com água aromatizada). Claro que no cortejo era solicitado para tirar fotografias à assistência. Só que, em lugar do passarinho saía uma bisnagadela, para gáudio de todos quantos tinham assistido ao pedido para ser fotografado.
Foi o ano em que o melhor filme do ano foi o “Fellini 8 _. Nas costas o “fotógrafo” tinha um letreiro que dizia: “Melhor ainda – S.......r 43 _ ”. Uma alusão directa a Salazar que lhe poderia ter ficado cara.
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