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O pergaminho


O que é o pergaminho?

O pergaminho é um material de suporte gráfico resultante do tratamento da pele de certos animais, como o carneiro, a cabra e a vitela. O aparecimento deste material encontra-se relacionado com a necessidade de encontar um suporte de escrita que apresentasse a capacidade de reter e perpetuar documentos de elevado valor histórico, ou seja, um substituto do papiro, cuja produção se encontrava limitada às regiões egípcias com vegetação apropriada, e cuja resistência aos agentes de degradação era diminuta.
Segundo a opinião de alguns historiadores, o pergaminho encontra as suas origens no primeiro milénio a.C., com o povo Assírio, embora Plínio refira a invenção da charta pergamene apenas no século II a.C. Contudo, a designação com que ficou universalmente conhecido deriva do nome de Pérgamo, cidade da Ásia Menor (hoje Bergama, situada na Anatolia, na Turquia), onde o rei Êumenes II, na sequência da proibição de exportação de papiros imposta pelos Ptolomeus, viu-se obrigado a encontar um material de escrita alternativo. Assim, Pérgamo encontra-se interligada, se não com a invenção do pergaminho, certamente com o aperfeiçoamento do seu fabrico e a sua produção à grande escala. Embora inicialmente, e até ao século VI, tenha sido preferencialmente empregue em códices, posteriormente começou a ser utilizado em documentos avulsos e cartas.

Da pele ao códice – como se preparava um pergaminho

A preparação da pele para a obtenção do pergaminho é bastante semelhante à da obtenção do couro, embora com passos de tratamento distintos. As operações diferem apenas a partir do momento em que a pele já se encontra descarnada e depilada.
A pele é formada por duas camadas, a epiderme (uma camada muito fina onde se encontram implantados os pelos, sendo constituida por queratina), e a derme (uma camada mais espessa, com restos de gordura, formada por fibras de colagénio entrançadas).
As operações que transformam uma pele animal num suporte de escrita podem ser sumariamente divididas em: depilação e descarnagem, diminuição de espessura e polimento.
Após a morte do animal, a pele era arrancada e lavada em água corrente muito fria, para retirar as maiores sujidades e o sangue. Seguia-se-lhe então uma segunda fase, a depilação, na qual a pele era submetida a um processo de maceração (figura 1), em água e cal durante vários dias (segundo Theophilus de 3 a 8 dias no Verão; 16 dias no Inverno). Esta operação era realizada em fossas onde eram se colocavam 20 a 30 peles de cada vez, as quais eram remexidas diariamente. A cal adicionada neste processo saponificava as gorduras, permitindo a sua dissolução na água que, posteriormente, carbonatava e branqueava o pergaminho, conferindo-lhe um pH ideal e protector.


Terminada esta fase, as peles eram novamente passadas por água e, por fim, esticadas em caixilhos de madeira, circulares ou rectangulares. A tensão aplicada deveria ser distribuída homogeneamente, esticando a pele, sem a rasgar. Assim esticada, a pele era desbastada com um lunelarium (um cutelo concavo que era utilizado para raspar as impurezas da pele) pelo reverso (lado dos pelos) e polida com pedra pomes e um pouco de água pelo verso (figura 2).


Depois de convenientemente raspada e polida a pele, ainda húmida, era lentamente esticada, até se obter a espessura de folha desejada.
Nesta fase de tensão-desidratação, ocorria uma completa reorganização da estrutura fibrosa da derme, orientando-se as fibras de colagéneo numa estrutura laminar fixa. De uma pele mole produzia-se então uma estrutura com a resistência e elasticidade necessárias para formar uma folha.
Quando o pergaminho se destinava ao fabrico de livros, ambos os lados seriam utilizados para escrever, pelo que era costume polir o reverso do pergaminho com a ajuda de pó de giz (carbonato de cálcio). Deste modo, os poros que antes encontravam-se preenchidos com os pelos do animal eram colmatados com o pó de giz, tornando-se a sua superfície mais homogénea e impermeável, permitindo uma boa fixação da tinta (e não absorção da mesma). Os fabricantes de pergaminho ocidentais utilizavam técnicas de produção distintas das dos gregos, os quais incluíam no polimento final uma clara de ovo e óleo de linhaça. Tal produzia um aspecto mais brilhante, tornando-o apto a receber as iluminuras.
No caso do pergaminho se destinar à realização de encadernações, era sempre a face mais acetinada que ficava à superfície, uma vez que era mais resistente à esfoliação e à deposição de pó.
Até ao século XIII, o pergaminho era fabricado nos mosteiros. Posteriormente a sua produção foi elevada a oficio, com a consequente criação do respectivo grémio.

Deterioração e envelhecimento

Devido ao seu método de produção, o pergaminho difere do couro devido à sua elevada higroscopicidade, à sua alcalinidade intrínseca, e à sua pouca flexibilidade e elasticidade. Em contrapartida, o cabedal é mais estável face à humidade, mais ácido, elástico e flexível.
O pergaminho é formado essencialmente por feixes de colagénio. As proteínas que compõem o colagénio apresentam uma sequência de aminoácidos específica, cuja composição e respectiva estrutura varia consoante a espécie animal. As características predominantes do pergaminho, como a sua reduzida elasticidade, derivam do estabelecimento de ligações intermoleculares. A sua elevada higroscopicidade deve-se à presença de inúmeros grupos polares, os quais estabelecem facilmente pontes de hidrogénio.
Os procedimentos de maceração em água de cal e de raspagem originam a remoção de proteínas plasmáticas, mucopolisacarídeos, queratina, elastina e gordura, produzindo uma matriz fibrosa de colagénio puro, contendo cerca de 13% de água e 1.6% de carbonato de cálcio.
As proteínas que compõem o pergaminho podem precipitar ou desnaturar face a exposições prolongadas a humidades relativas reduzidas, reflectindo-se num encarquilhamento intenso do material. Neste processo, ocorre uma quebra das pontes de hidrogénio e as fibras, incapazes de serem hidratadas, retraiem-se. Contudo, quando exposto a elevados valores de humidade relativa, o pergaminho sofre uma saturação, podendo mesmo ocorrer a sua gelatinização, tornando-o translúcido. A sua higroscopicidade torna-o ainda mais susceptível a um ataque biológico.

Opções
  • papel
  • Cabedal
  • fenomenos
Página gerada em: 2014-04-20 às 14:31:39 Última actualização: 2008-04-08