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"O poeta das relações internacionais"
"O admirável percurso de Milan Rados"
Fonte:
Expresso
O admirável percurso de Milan Rados, professor de Relações Internacionais e especialista em Ciência Política, autor de "Quem Matou a Jugoslávia" e do dicionário servo-croata, um antigo jornalista radicado em Portugal há 20 anos.
A sede de conhecimento de Milan Rados nunca está satisfeita. Daí que para o menino que nasceu no sopé de uma montanha, na antiga Jugoslávia, passar para além dos Balcãs fosse um desejo indomável. O gosto pela escrita acabaria por levá-lo ao jornalismo internacional e colocou-o mais próximo do seu sonho. O ideal foi, porém, deturpado pela guerra. O conflito que levou à separação da Jugoslávia obrigou-o a radicar-se em Portugal. Atualmente, o agora Doutorado em Relações Internacionais pela Universidade do Minho, passa os seus conhecimentos a gerações de estudantes.
A memória já não é o que era, mas não esquece o momento em que descobriu que ia ser poeta. "No 12º ano o meu professor de línguas mandou-nos escrever um poema e eu escrevi uma sátira que ele publicou na revista do liceu. O artigo tornou-se bastante popular e eu tornei-me poeta!" Desde esse instante, apesar de todas as voltas e peripécias que Milan Rados viveu, nunca mais se separou das Letras que sempre vieram em seu auxílio quando precisou. Sobretudo no momento mais complicado da sua vida, quando a guerra fratricida que destruiu o seu país obrigou-o a fugir.
Hoje é Professor do Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no âmbito das Relações Internacionais e da Ciência Política, campo onde, de acordo com José Palmeira, diretor do curso de Ciência Política da Universidade do Minho, "é dos maiores especialistas a trabalhar em Portugal".
O berço
Milan Rados Radenovich nasceu a 20 de Maio de 1951, na atual Bósnia Herzegovina (pertencente à antiga Jugoslávia), "numa aldeia próxima de uma montanha", no seio de uma modesta família sérvia. Aos 4 anos, "por causa do trabalho do pai", muda-se para a Croácia. Teve uma juventude marcada pela diferença de idade para os colegas de escola. "Era dois anos mais novo e sempre o último a ser escolhido. Quando os outros miúdos jogavam futebol era sempre reserva! Daí que, desde pequeno, tenha aprendido a competir." Um facto que deixou presença indelével na sua personalidade.
Seguiu-se o liceu e as dúvidas relativamente ao rumo que devia dar à vida. O pai "queria que fosse médico porque tinha boas notas a medicina e biologia". O gosto pelas Letras, instigado pelo professor de línguas do 12º ano, levaram-no a enveredar pela licenciatura em língua servo-croata e literatura jugoslava da Universidade de Zagreb. Decisão da qual se arrependeria passado um ano. "Mas, como tinha uma irmã mais nova e não havia dinheiro para os dois completarem o ensino superior" teve que acabar o curso. "E ainda bem!"
Quando terminou a licenciatura, em 1974, Milan Rados esperava tornar-se professor. Apanhado no meio da "crise económica que assolou a Jugoslávia", ficou "largos meses sem emprego". Nesse intervalo foi convidado para colaborar numa estação de rádio local. "Após um ano, concorri a uma posição de jornalista numa cidade média da Bósnia e comecei então a trabalhar como jornalista a sério." Apesar de não ter tido "formação académica", aprendeu nessa rádio os "fundamentos" essenciais da função. "Um progresso muito rápido" e, como "também lia muito", sem problemas a "nível linguístico".
Seria também neste órgão de comunicação que nasceria a duradoura ligação com o mundo da política e das relações internacionais. "O meu grande problema foi que me meterem na política e eu, de política, não percebia nada!" Foi aprendendo e, passado um ano, era responsável de um programa político que durava uma hora e se tornou muito popular. "Apaixonei-me pelo jornalismo. Mas é uma profissão que dá cabo da cabeça!"
Após cinco anos de "aprendizagem e crescimento" no jornalismo local, Milan Rados decidiu dar o salto. "Achei que tinha que ir para uma capital". E só havia duas que lhe interessavam: Belgrado ou Zagreb. Tentou Belgrado e não conseguiu. Mas no primeiro concurso que saiu em Zagreb foi admitido na Rádio Televisão Zagreb, que agora se chama Rádio Televisão Croácia. "Comecei por trabalhar num programa documentário, depois num de informação política e, por fim, na política internacional."
Destino: Portugal
Milan Rados estava a festejar os 30 anos com amigos e colegas num restaurante de Zagreb quando, "lá mais para a madrugada, depois de uns copos", começou a refletir sobre a vida. O gosto pelas relações internacionais não lhe saía da cabeça e a vontade de "mudar" começava a ganhar mais força. "O que é que eu vou fazer da minha vida?", pensou. Até que um colega proferiu a palavra que fez click: "Diplomacia!". Como não era de nenhuma família com influência, o amigo aconselhou-o a tirar um doutoramento em relações internacionais e estudar uma língua que pouco se conhecesse na Jugoslávia.
No dia seguinte foi às faculdades de Ciências Políticas e de Letras para ver que língua aprender. Como a Jugoslávia era a líder do Movimento dos Não Alinhados ia com a ideia de aprender árabe ou chinês. Porém, o estudo dessas línguas exigia presença nas aulas e como, nessa altura, Milan Rados já viajava muito como jornalista, não conseguia cumprir. "Foi então que, no fundo da lista, reparei que havia uma língua cujo curso não obrigava à presença nas aulas - era o português!" Começou a estudar português e a tirar o mestrado em relações internacionais.
O fim do mestrado, em 1990, coincide com o exacerbar das tensões separatistas na Jugoslávia. Decidiu "fugir". Procurou bolsas de doutoramento em Bruxelas e tornou-se correspondente da Rádio Televisão Zagreb junto da União Europeia (na altura Comunidade Económica Europeia). Entretanto, em 1991, eclodiu a guerra na Croácia. Na sua terra deixou o filho (do primeiro casamento com uma croata) "que tinha optado pela nacionalidade croata", os pais e a irmã.
Iniciou o que descreve como "o período mais terrível" da sua vida. "É difícil explicar o que senti durante o conflito. Não estava lá mas toda a guerra estava comigo. Foi uma humilhação da humanidade inteira." Proibiram-no mesmo de voltar à Bósnia para ver a família, o que só conseguiu passado oito anos. Uma visita que recorda com amargura. "Encontrei os meus pais, que tinham uma vida tranquila, normal, a viver como refugiados numa miséria terrível. Foi um choque porque, como expulsaram o meu pai, não lhe deram reforma durante muitos anos. Era uma grande miséria e uma coisa tão triste, tão triste..."
Pouco depois do início das hostilidades foi despedido da rádio "só por ser sérvio." Sem emprego e sem perspetivas de trabalho, valeu-se do conhecimento de português e da sua licenciatura em língua servo-croata. "Propus ao Instituto Camões fazer o dicionário português servo-croata, que não existia. Eles aceitaram, deram-me uma bolsa de seis meses e esse foi o primeiro passo para vir para Portugal."
Instalou-se em Lisboa e, além de continuar a trabalhar no dicionário, procurou um emprego. Colabora com o "Primeiro de Janeiro" que o convida para "editor de política internacional" no Porto. Uma experiência "não muito feliz" mas que o tornou conhecido no meio jornalístico e académico e onde formou as primeiras amizades em solo luso. José Palmeira, seu colega no "Primeiro de Janeiro", destaca "os conhecimentos que demonstrava de política internacional, particularmente sobre os Balcãs e a União Europeia, cujas instituições conhecera de perto". Recorda-o do convívio da redação "como um colega profissionalmente exigente e bom camarada de trabalho" e com "fortes convicções e de expressar as suas ideias com clareza e sem tibiezas, por vezes "fonte de dissabores numa sociedade onde o seguidismo e o cinzentismo tendem a prevalecer."
Foi também no início dos anos 90 que Pedro Leal, diretor-adjunto de informação da Rádio Renascença e "amigo pessoal" de Milan Rados, estabeleceu contacto com o servo-croata "por causa do conflito dos Balcãs" e logo viu que pelo seu conhecimento e postura "não era um imigrante normal". Define-o como uma pessoa "muito correta, muito determinada", que revela sempre uma grande "intolerância contra a falta de dedicação das pessoas", o que lhe faz "grande confusão".
O professor desafiante
O reconhecimento foi de tal ordem que, pouco depois de se estabelecer no Porto foi contratado pela Porto Editora para editar o dicionário e convidado para lecionar na então Escola Superior de Jornalismo do Porto, dirigida por Salvato Trigo. "Entretanto, conseguiu equivalência para o mestrado em relações internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e, como nessa altura, essa especialização era muito rara e a Escola Superior de Jornalismo precisava de alguém para ensinar Jornalismo Internacional, eu era peça ideal para eles." Um convite que o agora reitor da Universidade Fernando Pessoa, Salvato Trigo, justifica com as muito boas referências que obteve "sobre o percurso humano e académico do professor, da sua experiência jornalística e do seu conhecimento da diplomacia internacional."
Após acabar a licenciatura, Milan Rados achava que ia ser professor. Não se concretizou no imediato mas, como sempre gostou "muito de falar" e nunca teve medo de "discursar perante uma audiência", não estranhou a profissão que começou a desempenhar há quase 20 anos. Fernanda Ribeiro, presidente do Departamento de Ciências de Comunicação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, define-o como "uma pessoa simpática, cordial e de bom relacionamento" com os outros docentes.
Milan Rados cedo distingue-se pela maneira pouco ortodoxa como dá as aulas. "O que eu pretendo é motivar os alunos a gostar de alguma coisa e incentivá-los a ler, a estudar, a pensar. Daí que eu, muitas vezes, utilize palavras fortes com o sentido de provocar. Eu quero, no fundo, que não fiquem indiferentes." Joana Coelho, atualmente a tirar mestrado em Marketing e Gestão Estratégica na Universidade do Minho e que teve "três cadeiras com o professor durante a licenciatura", diz que Milan Rados "tem um modo muito direto de dizer aquilo que pensa e, por vezes, consegue ser bastante conflituoso quando, por exemplo, não gosta da atitude de um aluno." Joana valoriza uma característica que poucos professores têm, o sentido de humor: "Pode estar a falar de assuntos muito sérios, mas arranja sempre um modo de satirizar ou simplesmente brincar acerca disso".
João Pereira, a frequentar o mestrado em Estudos de Média e Jornalismo da Universidade do Porto, acrescenta que "Milan Rados é um ótimo contador de histórias. Tem uma forma muito própria de "debitar" matéria mas sem ser enfadonho e abrindo sempre o espaço à discussão." Ana Sofia Maciel, que está a tirar o mestrado em Comunicação Política da Universidade do Porto, dirigido por Milan Rados, relembra "a forma engraçada como se refere às pessoas e situações. No vocabulário do professor os jornalistas são "cervejeiros"; o pai de George W Bush é "Bush papá" e combater é "dar porrada"." Tudo isto fica na cabeça dos seus alunos.
A catarse da escrita
Além de professor, Milan Rados é um escritor prolífico e incansável. "Comecei a preparar o dicionário servo-croata por volta de 1985, e conclui-o por volta de 1996." Foi a maneira que encontrou de lidar com a dor e o afastamento da família. "Para não pensar, trabalhava dia e noite, todos os dias, Natal, e a todas as horas que podia. Para não pensar fazia, fazia, fazia..." E, assim, nasceu uma obra que o enche de orgulho Milan: "Foi o primeiro do género. Recebi muitas cartas, até de soldados portugueses nos Balcãs a agradecer-me".
De seguida, continuou a "terapia" ao editar o livro "Quem Matou a Jugoslávia", que se tornou "muito popular". Inserido na tese de doutoramento que apresentou na Universidade do Minho, o livro examina as tensões culturais e sociais que acabaram por levar à separação da Jugoslávia numa série de estados independentes. Foi a primeira obra editada em português sobre o assunto. Tinha vontade apresentar dados e fazer uma coisa nova. "Escrever o livro era uma fúria. Foi quase um transe. Durante os 4/5 meses só falava sobre aquilo. Parecia uma febre. E quando acabei de escrever foi como se tivessem tirado um peso de cima dos ombros. Mas apesar disso tentei sempre ser o máximo objetivo, o máximo didático".
Mais tarde lançou uma obra sobre as estruturas da União Europeia intitulada "Política externa da União Europeia" que, apesar de "alguns problemas com o editor, surge "anotada em diversos artigos". Em 2008, no âmbito de uma das cadeiras que leciona no curso de Ciências da Comunicação - História do Mundo Contemporâneo - lança "Mundo e Comunicação", um manual da matéria que ajuda os seus alunos. Na obra procura, falar das instituições internacionais, das relações externas, fazer perceber o conceito de Estado, política e comércio internacional, entre outras coisas.
Encontra-se "há 3 anos" a preparar o próximo livro com o qual se tem "divertido imenso". Vai chamar-se Política Externa e é a análise aos quatro "atores" que considera mais importantes das relações internacionais: China, EUA, Rússia e União Europeia. "No fundo, é um estudo das mudanças muito profundas que ocorreram nos últimos 5 anos e que eu nunca acreditei que fossem possíveis." Uma obra que planeia completar já este ano.
No futuro próximo planeia voltar a focar-se na sua terra natal e analisar as mudanças que ocorreram nos últimos anos. Sobretudo na Bósnia-Herzegovina onde se começa a "identificar com a República Sérvia da Bósnia-Herzegovina". Diz sentir necessidade de escrever, pelo menos, 2 livros sobre posição externa dessa república sérvia, pois "não se sabe muito bem se a Bósnia se vai dividir ou não." E tomou uma decisão inédita. "Vão ser os primeiros livros que vou escrever na minha língua materna. Aos 60 anos. E estou um pouco ansioso."
Passados mais de 20 anos em Portugal, já adotou muitos dos hábitos e características dos portugueses. Diz mesmo que agora "pensa em português". Porém mantém uma forte ligação à terra que o viu nascer e faz questão de o mostrar no que quer que faça. E continua sem esquecer quando se tornou poeta.